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terça-feira, agosto 29, 2006

O MINISTÉRIO DAS BANALIDADES

Eugene Peterson, O Pastor Contemplativo, p.129

Impaciente com o comum - Meu pastor, durante os anos de minha adolescência, costumava freqüentar a nossa casa. Depois de um breve e embaraçoso intervalo, ele sempre dizia: “E como vão as coisas em sua ALMA hoje?” – (Ele sempre pronunciava “alma” com letras maiúsculas). Eu nunca dizia muita coisa. Era tímido demais...
Trabalho pastoral - aprendi muito mais tarde - é esse aspecto do ministério cristão que se especializa nas coisas comuns. Faz parte da vida pastoral ser atencioso, interessado e apreciador do contexto diário da vida das pessoas...
Se alguém na sala fizesse perguntas sobre escatologia, não demorava muito para que eu me atirasse de cabeça na conversa; mas, se o assunto passasse para as vendas de pneus radiais nas concessionárias, a minha atenção se desviava. Eu fazia acenos sem significado e resmungava qualquer coisa enquanto procurava me desembaraçar e dirigir-me a uma reunião mais necessária e exigente na questão de almas. Que tempo eu tinha para conversas banais quando estava comprometido com a mensagem maior da Salvação e eternidade? O que tinha a fazer com a tagarelice sem propósito a respeito do tempo e da política quando tinha “fogo em minha boca”? Sei que não sou o único pastor que fica constrangido e impaciente com as conversas banais. Sei também que não sou o único que racionalizou a impaciência alegando prioridades de assuntos importantes como Sermões, Apologética e Aconselhamento...Uma conversa casual num avião poderia ser transformada em conversa significativa sobre a eternidade da alma. Um breve intercâmbio com um frentista de um posto poderia abrir uma brecha para uma “palavra sobre Cristo”. Tais abordagens à conversa não deixavam espaço para a tagarelice – todas as banalidades eram manipuladas para assuntos mais elevados: Jesus, Salvação, condição da alma...
Banalidades: Uma Arte Pastoral - “Senhor, como odeio as grandes questões!” foi uma sentença que copiei de uma das cartas de C.S. Lewis e guardei como lembrança. Ele está reagindo contra a presunção que só vê significado nas manchetes – no que faz ruídos e é grande. Lewis advertiu sobre a arrogância de nariz empinado que ignora o que é simples e raro e, portanto, deixa de participar de grande parte da rica realidade da existência.
Os pastores, em especial, desde que estamos freqüentemente envolvidos com grandes verdades e somos despenseiros de grandes ministérios, precisam cultivar a humildade na maneira de dialogar. Humildade significa ficar perto do solo (humos), das pessoas, da vida diária, do que está acontecendo em toda a sua realidade.
Não quero que me compreenda mal:a conversa pastoral não deve ficar presa a clichês triviais como água no esgoto. O que pretendo é que estejamos presentes e atentos às conversas, respeitando tanto o que é comum como o que é crucial. Alguns discernimentos só são acessíveis quando rimos. Outros chegam apenas indiretamente. A arte esta envolvida aqui...
Subimos em nosso púlpito do Sinai semana a semana e proclamamos o Evangelho no que esperamos seja a autoridade persuasiva de um “trovão engenhoso” (frase de Emerson). Quando descemos até o povo na planície, uma habilidade diferente é requerida, a arte da conversa banal.

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