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terça-feira, agosto 29, 2006

PRIMEIRA LINGUAGEM

Eugene Peterson, O Pastor Contemplativo, p.101

Qual a minha tarefa educacional? - As pessoas não vão a igreja por obrigação, mas, voluntariamente. Apresentavam um nível de motivação para o aprendizado muito superior ao existente em qualquer assembléia acadêmica... Então ensinei. Ensinei do púlpito. Ensinei nas casas e em salas de aula. Ensinei adultos, jovens e crianças. Formei grupos especiais, preparei cursos-relâmpagos, conduzi seminários... Havia pessoas estudando Isaias e Marcos, a Reforma e Teologia, e Arqueologia do Antigo Testamento, que nunca haviam usado a mente de maneira disciplinada desde que receberam seu diploma da escola secundária ou da faculdade...
Não tenho paciência e não irei conscientemente aceitar as tendências obscurantistas ou anti-intelectuais na Igreja. Mas, há um dever educacional confiado aos pastores muito diferente do designado aos professores. As abordagens educacionais em todas as escolas que freqüentei conspiravam para ignorar a sabedoria dos lideres espirituais do passado que treinaram as pessoas nas disciplinas de obedecerem a Deus, moldando a vida interior de modo a adequá-la a recepção da verdade e não apenas à aquisição de fatos...
Auxílio disponível - Não é fácil manter em foco esta convicção... Mas há auxilio disponível. A maior parte da minha ajuda foi recebida por meio da amizade com alguns ancestrais mortos há muito tempo. Gregório de Nissa e Teresa de Ávila foram os primeiros. A dotei esses mestres como mentores. Eles expandiram o meu conceito de oração e me apresentaram à ampla, imaginativa e vigorosa linguagem da oração. Me convenceram de que ensinar as pessoas a orar era o meu melhor trabalho. Mais ajuda veio de uma área inesperada entre os meus contemporâneos, os filósofos do idioma (especialmente Ludwig Wittgenstein e Eugen Rosenstock- Huessy)... Esses filósofos me deram uma bússola que mostrou o caminho para recuperar o tipo de linguagem que parecia praticamente nativa para as principais gerações da fé, aquela exigida se eu quisesse manter a fé com muita vocação pastoral e ensinar as pessoas a orar.
Três tipos de linguagens - Reduzi, simplifiquei e resumi o que aprendi nesses aspectos a uma espécie de esboço de um mapa de linguagem, mostrando três seções: Linguagem I, Linguagem II, Linguagem III.
A Linguagem I é a da intimidade e relacionamento. É a primeira que aprendemos. No principio, não se trata de fala articulada... Os ruídos feitos pela criancinha não podem ser analisados gramaticalmente. As silabas sem sentido dos pais não possuem definição no dicionário. Mas, o intercâmbio desses barulhinhos fora do tom desenvolve a confiança... Apesar de seu vocabulário limitado e sintaxe massacrada, esta linguagem parece mais do que adequada para expressar as realidades de um amor complexo e profundo...
A Linguagem II é a linguagem da informação. À medida que crescemos, descobrimos este maravilhoso mundo de coisas que nos cercam e tudo tem um nome: pedra, água, boneca, garrafa... Dia após dia palavras são acrescentadas. As coisas nomeadas não são mais estranhas, mas familiares. Ficaram amigas do mundo. Aprendemos a falar em sentenças, fazendo ligações... A linguagem II é a principal linguagem usada nas escolas.
A linguagem III é a da motivação. Descobrimos bem cedo que as palavras tem o poder de fazer as coisas acontecerem, extrair algo do nada, mover figuras inertes e levá-las à ação internacional. O choro da criança resulta em alimento e uma fralda seca. A ordem dos pais detém o acesso de raiva infantil. Nenhuma força física esta envolvida. Nenhuma causa material é visível. Apenas uma palavra: pare, vá, cale-se, fale, coma tudo que está no prato. Somos movidos pela linguagem e fazemos uso dela para mover outros... A linguagem III é a linguagem predominante na propaganda e política.
A linguagem I, a linguagem da intimidade, que desenvolve relacionamentos de confiança, esperança e compreensão se esvai. Logo que deixamos o berço, descobrimos cada vez menos ocasiões de fazer uso dela. Alguns nunca deixam de usá-la – uns pouco apaixonados, alguns poetas, os santos – mas a maioria se esquece dela...
Convertendo a Linguagem - Quando comecei a ouvir a linguagem com essas descriminações, compreendi como eu era totalmente condicionado à cultura. Quão conformado a este mundo!Meu uso da linguagem na comunidade de fé era uma imagem refletida da cultura: muita informação, muita publicidade, pouca intimidade... Estava repetindo na igreja o que havia aprendido em minhas escolas completamente secularizadas e na sociedade saturada pelo marketing, mas não estava ajudando muito as pessoas a desenvolverem e usarem a linguagem básica tanto para a sua humanidade como para a sua fé, a linguagem do amor e da oração...
Este é porém, meu trabalho básico: de um lado proclamar a Palavra de Deus que é pessoal – Deus se dirigindo a nós em amor,convidando-nos para uma vida de confiança n’Ele; de outro lado, guiar e encorajar uma resposta que seja também pessoal – falar na primeira pessoa à segunda pessoa, eu-para-você, e evitar ao máximo comentários na terceira pessoa. Esta é minha tarefa educacional essencial: criar e tornar articulada esta palavra pessoal, ensinar as pessoas a orar. A oração é a Linguagem I. Não é uma linguagem sobre Deus ou a fé; não é uma linguagem a serviço de Deus e da fé; é a linguagem para e com Deus em fé.
Lembro-me de uma sentença há muito tempo esquecida de George Artur Buttrick... “Os pastores pensam que as pessoas vão a igreja ouvir sermão. Mas não é assim. Elas vão para orar e aprender a orar.” Lembrei-me da transição critica de Anselmo, deixando de falar sobre Deus para falar com Deus. Ele havia escrito o seu Monologion, estabelecendo as provas da existência de Deus com grande brilho e poder. Esta obra é das principais realizações teológicas no Ocidente. Ele compreendeu mais tarde que apesar das muitas coisas certas que dissera a respeito de Deus, todas haviam sido ditas na linguagem errada. Reescreveu então tudo em um Proslogion, convertendo a sua linguagem II em linguagem I:dirigida a primeira pessoa, uma resposta a Deus, uma conversão pessoal com o Deus pessoal. O Proslogion é Teologia em forma de
oração...

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