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domingo, setembro 24, 2006

As águas já rolaram

De onde veio e para onde foi a água do Dilúvio? Por outro lado, se os montes do ararate foram cobertos, como não acreditar no Dilúvio universal?

Por mais antigo que seja, o Dilúvio é assunto mais do que relevante em nossos dias. As águas de março já fecharam o verão, mas a grande preocupação de nossos dias ainda é com o clima. Será que o aquecimento global irá trazer um caos no clima mundial? O desastre do tsunami no sudeste asiático não sai da cabeça de muitos. Está na hora de olhar a meteorologia e pensar numa “teologia do tempo”. Afinal de contas, qual é a importância e relevância do Dilúvio? Quais questões podem ajudar a entender o assunto? Temos respostas para todas as perguntas? Em primeiro lugar, é preciso ressaltar que o Dilúvio não é assunto que se limita à narrativa bíblica. A grande verdade é que se trata de um tema universal.Documentos egípcios falam que Ra decidiu exterminar o homem com um dilúvio de sangue que atingiu Heliópolis, morada dos deuses. Na mitologia indiana, conta-se que um peixe disse a Manu que um dilúvio destruiria todas as criaturas. Manu deveria construir uma embarcação e adorar o peixe, que acabaria por puxar seu barco e salvá-lo, o único sobrevivente da grande enchente. Os gregos também mencionam o Dilúvio em cinco lendas, conforme Plutarco. Na mais importante, Zeus envia um dilúvio, no qual Deucalião e Pirra salvam os filhos e os animais a bordo de um navio na forma de caixa. A descrição de um grande dilúvio também é comum na China, e em muitas culturas asiáticas, africanas e ameríndias.A semelhança maior com a Bíblia, porém, aparece na Babilônia.
O documento mais famoso é a Epopéia de Gilgamés que apresenta a principal correlação com o texto bíblico. O texto babilônico fala que Gilgamés é avisado sobre o dilúvio por Utnapishtim, e, como Noé, é salvo das águas. No relato, ele diz que o deus criador Ea avisou-o do dilúvio e ordenou-lhe que construísse um barco, onde ele levou sua família, bens e todas as criaturas vivas. O texto ainda afirma que a tempestade durou até o sétimo dia e a terra seca apareceu no décimo segundo dia, quando o barco repousou no monte Nisir. Outro texto babilônico antigo paralelo ao Gênesis é o Épico de Atrahasis. A história, com a perspectiva religiosa babilônica, contém muitos detalhes semelhantes aos relatos bíblicos da criação e do dilúvio. No conto babilônico, os homens se multiplicaram na terra e se tornaram barulhentos; por isso um dilúvio é enviado para destruir a humanidade. Um homem chamado Atrahasis é avisado sobre o dilúvio e recebe ordens para construir um barco. Ele constrói o barco e enche-o de alimento, animais e pássaros. Assim, se salva enquanto o resto do mundo morre. No final da história, Atrahasis oferece um sacrifício aos deuses e o deus principal aceita que o homem continue a viver na terra.Muitos já tentaram explicar esses relatos das mais diversas formas. Disseram que o Dilúvio é uma lenda universal que mostra o “incosciente coletivo” do ser humano. Outros afirmaram que são relatos independentes, que apenas simbolizam o renascimento da vida depois da chuva. Houve quem sugerisse que as lendas sobre um dilúvio são recordações derivadas do degelo no fim da Era Glacial, ocorrida há vários milênios. Porém, a única coisa que todos estes relatos comprovam é que houve algum dilúvio.
Não é possível que haja tantas histórias sem que nada tenha acontecido! Além disso, é impossível duvidar que uma grande inundação tenha acontecido pelo menos na região da Mesopotâmia, principalmente devido às semelhanças dos relatos.Os críticos da Bíblia ainda sugerem que os hebreus teriam copiado o dilúvio dos babilônios, já que tais relatos seriam mais antigos. O fato é que os primeiros hebreus vieram da Babilônia - veja Abraão - e conheciam a história. A diferença está na interpretação teológica. Os babilônios o relatam a partir de suas crenças, os hebreus a partir da fé no Deus de Israel. A arqueologia já comprovou que há cerca de 6 mil anos, uma gigantesca inundação atingiu a Mesopotâmia. Alguns sítios arqueológicos da antiga Suméria apresentam uma camada muito espessa de argila de aluvião, semelhante à que é depositada por inundações muito longas. Em E a Bíblia Tinha Razão, Werner Keller detalha bem o assunto. No fim das contas, o Dilúvio é um dos fatos mais confirmados da Bíblia. Há provas indiscutíveis de que houve uma grande inundação na Mesopotâmia antes da era patriarcal. Há centenas de tradições no Oriente Próximo e em todo mundo que contam a seu modo a história do Dilúvio. A grande dúvida entre os estudiosos das Escrituras, hoje, é qual foi a extensão do Dilúvio? Será que atingiu toda a terra? Ou foi apenas uma grande inundação regional?
Vejamos as dificuldades para a hipótese de um dilúvio universal:
De onde veio e para onde foi tanta água?
O volume de água para uma inundação mundial de quase nove quilômetros de altura seria oito vezes superior ao que temos no planeta. Isso destruiria todos os vegetais.
Além disso, como essa água desapareceu depois?
Poderiam os animais de outros continentes viajar até Noé e caberiam todos na arca?
A arca tinha 135 metros de comprimento por 22,5 de largura e 13,5 de altura, com três andares. Além de ser difícil acomodar todos os animais do mundo, como os animais que vivem em outros continents teriam se deslocado até lá? A mistura entre mares e rios não mataria muitos peixes? Sabemos que peixe de água doce não vive em água salgada. Se as águas do planeta se misturassem, os peixes dos rios teriam sido extintos.
Como armazenar alimento para tantos animais?
Se já é difícil acomodar os animais, como armazenar e alimentar tantos bichos por mais de um ano?
Por que Noé não foi anunciar a todos os povos o castigo de Deus? Se o Dilúvio atingiu todo o planeta, Noé não deveria viajar antes para avisar a todos os povos?
Por essas razões, muitos estudiosos acreditam que o Dilúvio foi regional, com significado universal. Apesar disso, eles também têm perguntas difíceis a serem respondidas:
Por que seria necessário construir uma arca, se os animais poderiam ter fugido para um outro lugar? Se a inundação atingiu somente uma região, será que faria sentido construir uma arca enorme para preservá-los? Não seria mais simples fazê-los migrar? O que dizer das aves migratórias? Elas entraram na arca?
A própria Bíblia não afirma que o Dilúvio cobriu toda a terra?
Ainda que se argumente que “debaixo do céu” refira-se a uma região, o texto de Gênesis 7.19-23 parece dar uma idéia de inundação global e não regional. Como acreditar que o Dilúvio foi parcial, se as águas cobriram os montes do Ararate? Seria possível que uma inundação cobrisse os altos montes do Ararate sem que Europa e África fossem inundadas?
Se Deus afirmou que o Dilúvio não se repetiria, como pode ter sido parcial? Parece não fazer sentido crer que uma inundação parcial não se repetiria. Através dos anos, centenas de inundações têm assolado o planeta. Como a promessa de Deus pode ser cumprida, se o Dilúvio foi apenas uma inundação local?Como toda a humanidade pode ser descendente de Noé? A Bíblia em Gênesis 10:32 nos diz que a terra foi povoada a partir dos filhos de Noé. Se o Dilúvio foi apenas regional, como isso poderia ser possível? Cada um deve avaliar as dificuldades das duas perspectivas e tomar a sua posição. A verdade é que, ainda que o Dilúvio tenha sido parcial, seu significado é universal. O Deus justo puniu a arrogância e maldade dos homens quando essas atingiram limites máximos. A misericórdia divina preservou Noé e sua família, mantendo a esperança de redenção.
Segundo Gênesis 9:11, não haverá outro dilúvio como aquele. Mas se nunca mais “as águas vão rolar”, isso não significa que não se deva dar atenção à confirmação que Jesus fez do Dilúvio e de seu alerta: “Como foi nos dias de Noé, assim também será na vinda do Filho do homem. Pois nos dias anteriores ao Dilúvio, o povo vivia comendo e bebendo, casando-se e dando-se em casamento, até o dia em que Noé entrou na arca; e eles nada perceberam, até que veio o Dilúvio e os levou a todos. Assim acontecerá na vinda do Filho do homem.” (Mateus 24:37-39)
Mesmo sem águas, o julgamento divino vai chegar. Esteja preparado!
Luiz SayãoTeólogo, hebraísta, escritos e tradutor da Bíblia. É também professor da Faculdade Batista de São Paulo, do Seminário Servo de Cristo e professor visitante do Gordon-Conwell Seminary.

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