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sábado, maio 19, 2007

A escravidão e a religião de hoje


"Antigamente, os escravos tinham um senhor,
os de hoje trocam de dono e nunca sabem o que esperar do dia seguinte."
Fernando Henrique Cardoso


Não podemos valorizar algo que favoreça a escravidão. Isto é inadmissível no coração de qualquer ser humano equilibrado. Desde o inicio Deus disse ao homem para dominar sobre todas as coisas, menos dominar outro ser humano. Apenas após a queda a mulher ficou sob seu domínio, jamais como escrava, mas como uma posição hierárquica.

Hoje em dia a escravatura continua abertamente em alguns paises. Recentemente o governo italiano reconheceu que jovens albanesas eram mantidas como escravas sexuais e quando engravidavam eram levadas para Alemanha para terem seus filhos e estes eram vendidos. Isto acontece também com nossas mulheres brasileiras que são levadas para paises como a Espanha com uma falsa oportunidade de emprego, mas lá são mantidas como escravas sexuais. Aqui no Brasil a Lei Áurea não chegou a todos, muitos continuam até hoje presos em fazenda como escravos e mortos sem nenhum pudor quando contrariam o seu senhor, que abominavelmente houve caso do ‘senhor de escravos’ ser um político de renome.

A escravatura não foge dos nossos olhos. Mesmo numa cidade como São Paulo ou numa cidadezinha do interior há pessoas que exploram outras crendo que ainda está fazendo um bem, pois esta não tem o que comer nem onde morar. Muitos ‘empregos’ são mais parecidos com escravidão, como são tratados alguns bóias-frias e bolivianos em confecções em São Paulo.

Mas e a Bíblia e as autoridades religiosas, como tratam do assunto?

Jesus citou vários exemplos de servos e senhores, pois era uma prática comum na época e a mensagem de Jesus baseia-se na escravidão espiritual, éramos escravos do pecado e agora somos servos de Cristo. Eram súditos do reino das trevas, agora somos cidadãos do Reino da Luz. O Novo Testamento não favorece a escravidão, entretanto enfatiza o amor entre servo e senhor, rejeitando a rebelião. Em Ef 6.5, Cl 3.22, 1 Tm 6.1, Tt 2.9 e 1 Pe 2.18 a mensagem é a mesma, servos obedeçam a seus senhor com amor. Citando a existência de crentes que possuíam servos. Filemom era dono de escravos e Paulo pede para ele receber Onésimo não mais como escravo, mas como irmão amado.

A base maior que temos contra a escravatura é o amor. Não há um ser amoroso que transforme seu semelhante em escravo. Precisamos como cristãos lutar contra a escravidão física e intelectual e não apenas contra a escravidão espiritual.

Em 1 Coríntios 7.20-24 Paulo fala para os irmãos permanecerem na vocação que foram chamados, ou seja, contente-se com sua posição social, mas se for escravo aproveite a oportunidade para se tornar livre e os livres jamais tornem-se escravos de homens. Mas viver como livre requer um temperamento especial da mente e do espírito. É fácil aceitar sem discutir o que outros mandam, e assim exibir a mentalidade de escravo. Não é esta a maneira de agir do cristão
[1]. Mas infelizmente líderes religiosos não fazem da religião um instrumento de liberdade, e sim de escravidão mental, ritualística e dogmática. Prometem liberdade espiritual, entretanto encarceram as pessoas em doutrinas que prometem uma falsa esperança. Como disse Feuerbach: “A religião é um sonho da mente humana” ou como disse Marx: “A religião é o ópio do povo”. Ópio do povo? Pode ser, mas não aqui. Em meio a mártires e profetas, Deus é o protesto e o poder dos oprimidos[2]. Deus é Justiça e está do lado dos oprimidos, dos pobres e daqueles que sofrem. A consciência da fumaça nos remete ao incêndio de onde ela sai. De forma idêntica, a consciência da religião nos força a encarar as condições materiais que a produzem[3]. Paulo fala diretamente com irmãos em Cristo que estão vivendo esta condição social. A escravidão humana era uma instituição aceita, sancionada por lei e parte do arcabouço da civilização greco-romana[4], para os gregos, escravos eram considerados como gado[5]. Hoje o mundo abomina a escravatura fazendo com que a religião e o Cristianismo lutem incansavelmente contra esta prática.

Em Portugal a Igreja Católica, através do presidente da Comissão Episcopal para as Migrações e Turismo, D. Januário Torgal, tomou posição e deixou a crítica à nova legislação da imigração dizendo: «deixamos entrar estrangeiros durante cinco anos para construir estádios para o europeu de 2004, mas depois de explorados pelos tubarões do capitalismo, damos-lhes um pontapé». Justificou as suas declarações defendendo que «a nova lei devia ter sido objeto de um debate profundo» e «como ninguém dá voz aos emigrantes, era preciso fazer justiça e manifestar solidariedade para com eles»
[6]. É desta maneira que todos aqueles que se dizem estar do lado de Deus devem fazer. Defender os direitos humanos, protegendo os oprimidos, ajudando os que sofrem e alimentando os que fome. Da mesma forma que Paulo Diz que nosso cristianismo será em vão se colocarmos nossa esperança somente nesta vida, também se tornará em vão se olharmos apenas para vida vindoura. Ser cristão é ser político, pois político é todo aquele que trata dos problemas da polis, ou seja, da cidade e da sociedade.

Não temos que lutar apenas contra a escravidão, mas principalmente contra as conseqüências da antiga escravidão racial que ainda reflete muito forte em nossa sociedade. “Nós, brasileiros, precisamos pagar uma dívida com a raça negra do Brasil. Faz quase 120 anos da abolição da escravatura e até hoje a elite intelectual, a elite econômica, a elite de todo tipo no Brasil é branca. Dá a impressão de que o Brasil é um país europeu ainda escravocrata. Defendo a cota para negros para que o Brasil, que é multirracial, tenha a dignidade de ter os negros participando de sua elite”. A afirmação é do senador Cristovam Buarque (PDT-DF), em entrevista à Agência Senado sobre a proposta de criação de cotas para negros e para alunos de escolas públicas nas universidades federais e estaduais.

Este sistema de cotas não vai resolver o problema, mas são passos que a sociedade deve dar. Pois a escravidão continua em nossos corações como racismo. Sutilmente quase todos tem lampejos racistas em suas ações, inclusive os proprios negros calejados por esta opressão. Precisamos rever nossos conceitos sobre escravidão e sua devastação. Hoje ela está oculta, mas bem presente em nossa volta e até mesmo dentro dos nossos corações com uma estrutura racial. E nossa função é protestar contra estas práticas que definham a alma da nossa sociedade, pois destroi a liberdade fisica e inteletual de seus participantes.

Como no caso do divórcio, onde não era uma prática determinada por Deus, mas pela dureza dos corações dos homens, assim a bíblia não ataca com ‘unhas e dentes’ a escravidão pois era prática aceita pela sociedade. Hoje isto não é mais aceito, o Brasil foi o ultimo pais a abolir a escravatura formalmente. Então desde 13 de maio de 1888 a escravidão foi oficialmente abominada, entretanto foram lançadas as bases da favelização e da perpetuação da miséria social e cultural a que foi condenada a maioria dos descendentes da raça negra e grande parte dos cidadãos de origem humilde. Por isso cabe a igreja fazer a justiça social ordenada pelo próprio Deus encontrada por toda a Bíblia.


Frases:

"Porque a emancipação em si não passava de uma formalidade, condição necessária, mas muito insuficiente da liberdade. Era mais frequentemente um gesto simbólico do que um acontecimento que mudasse radicalmente a vida do escravo e as suas relações com o senhor. Assim, havia tendência para emancipar os velhos escravos à hora da morte, para se ter e lhes dar a consolação de uma morte de homens livres. (...) as libertações em massa de escravos, no séc.IV, sob a influência do cristianismo, tinham consequências éticas, mas não económicas."
"A sociedade romana" (Paul Veyne)

Nos anos 50 um tio meu foi trabalhar para Angola. Quando veio de férias, ouvi-o contar uma vez que tinha furado o lubéulo da orelha esquerda dum preto com a unha do polegar direito, para ver se "eles" tinham sangue vermelho como nós...Acho que não é necessário aumentar comentários a este ato atróz de colonialismo racista, a única posição que os meus compatriotas portugueses sabem tomar em relação a África.

Queria referir também a escravatura que ocorreu no Brasil, a "favor" do desenvolvimento da cana-de-açúcar, para dela extrair álcool, chamado Etanol. No Brasil estão a pagar aos colhedores de cana a quantia de US$ 2 por tonelada de cana colhida! E depois cobram tudo de volta para "casa" e comida...
Paulo Barreto. Deurne, Holanda.

O pior erro de toda a História humana foi, sem dúvida, negar a liberdade ao outro na forma conhecida por escravatura. O que interessa agora é que não haja mais nenhuma manifestação da escravatura no mundo. Todavia, a escravatura ainda persiste na Costa Ocidental da África nomeadamente, na Mauritânia e no Níger. As Nações Unidas devem olhar para esse problema e castigar exemplarmente os culpados, porque não podemos coabitar, no Séc. XXI com anti-sociais deste gênero.
Domingos Gomes. Guiné-Bissau.

Espero que a escravatura nunca mais volte aos nossos dias. Foi um erro perpetrado por alguns impérios. Erro que trouxe até hoje um atraso cultural e econômico a países como o meu (Angola). Nada é mais importante para um povo do que a sua liberdade.
Miguel Angelo. Angola

Acho que os povos de todo mundo se devem respeitar, aprender dos erros históricos do passado - porque a escravatura foi um erro - e não permitir que nenhum homem ou mulher seja nunca mais vítima de uma prática tão bárbara como a escravatura
Celso Timana. Maputo, Moçambique

No intróito, a escravidão era vista como boa por causa da manufatura, pois os senhores de engenhos não precisavam pagar a manufatura. Mas depois foi conhecida a realidade da escravidão de que eles se encontravam machucando pessoas, ou seja, uma etnia de povos.
Cicero Dantas, Brasil.



Bibliografia

Douglas. J.D, Novo dicionário da Bíblia. Ed. Vida Nova.1995. SP.
Martin. Ralph. Introdução e comentário Colossesnses. Ed. Vida Nova. 1987.
Vaux.R. Instituições de Israel. Ed. Vida Nova. 2004. SP.
Alves, Rubem. O que é religião. Ed Brasiliense. 12 edição. 1989. SP
Morris, Leon. Introdução e comentário Coríntios. Ed Vida Nova. 2005. SP

[1] Morris, Leon. p. 92
[2] Alves, Rubens. p. 114.
[3] Idem. p. 73.
[4] Martin, Ralph. p. 132.
[5] Douglas. J. D. p. 520.
[6] Fonte: www.expresso.pt

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