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sexta-feira, junho 22, 2007

O baile.

Ricardo Gondim
- Vamos dançar? Com essa pergunta, conquistei minha primeira parceira num baile. Naqueles tempos, havia poucas opções para se aproximar de uma menina e eu começava a esbanjar hormônios. Por isso, não faltava às festas vesperais do Maguary, o clube de minha adolescência; ali teria boas oportunidades de cheirar o perfume do pescoço de uma mulher.
Fui um desastre quando tentei dançar pela primeira vez. Sem me deixar embalar pela melodia, meus pés se confundiram no compasso do bolero. Sem ritmo, tropecei diversas vezes nas sandálias alheias. Que vexame! Não consegui fazer o "dois para lá, dois para cá". Quanto mais me preocupava, mais parecia um robô desfilando em feira de informática. Dancei sem molejo, inflexível como um eixo de trator. Constrangi minha parceira. A festa acabou e voltei para casa arrasado. Desaprendi o que nunca havia aprendido. Dali para frente, acumulei constrangimentos piores. Cada nova tertúlia musical transformara-se numa tortura.
Minha salvação veio quando me filiei a uma comunidade evangélica. Lá se proibiam danças profanas. Entre os crentes, não passaria pelo acanhamento de pisar em lindos pés femininos.
Contudo, hoje percebo que perdi muito em nunca ter aprendido a valsar. Dança é uma maneira elegante de movimentar-se não só em festas, mas pela vida. Quando bailamos, a música penetra nossa pele afetando alma e espírito, ensinando-nos a ser leves.
Como é encantador observar um cavalheiro deslizando com sua dama por um salão. Sincronizados magistralmente, os dois parecem um, tangidos pelo som inebriante que vem da orquestra. Certa vez, contemplei um casal movendo-se com tanta graça que parecia levitar. O homem traçava linhas imaginárias com os pés e ela o seguia, rendida; os dois somavam harmonia com espontaneidade. Restou a nós outros, que temos pés de chumbo, a inveja.
Os bons dançarinos são alquimistas que transformam melodia em gestos. Como artistas, burlam regras fixas. Comportam-se semelhantes aos músicos do jazz, que deslumbram improvisando. São borboletas que voam graciosamente pelo quadrado do salão, obedecendo ao comando mágico da música. O cavalheiro apóia a mão nas costas da dama, comandando com toques sutis, mas com tal delicadeza que ela reconhece que ele também está sendo “dançado”, vassalo da melodia.
Depois de casado cheguei a pedir que minha mulher me ensinasse a bailar, numa tentativa desesperada de recuperar anos perdidos sem música e sem leveza. Tarde demais! Continuei sem ginga, sem ritmo e sem sensibilidade para deixar-me encharcar de melodia.
Reconheço que sou exageradamente consciente de minhas inadequações motoras, pois ainda hesito entre esquerda e direta. Não gosto que notem o tamanho do meu desajeitamento. Traumatizado, continuo imaginando que rirão de mim pela falta de jogo na cintura.
Dançar consiste numa das poucas atividades ainda não mecanizadas, já que espontaneidade, improviso e leveza são seus atributos essenciais.
As danças acompanham o homo sapiens desde o princípio. Nossos ancestrais pularam de alegria quando controlaram o fogo. Havia dança nas mais remotas manifestações de felicidade. Depois, quando as sociedades se aglutinaram para celebrar vitórias na guerra e ritos de passagem, os movimentos evoluíram mais compassados. Mais tarde, tentaram imitar os ritmos e as pulsações que sentiam vir do universo. Assim nasceu a prática religiosa, na busca dessa sintonia artística com a essência da vida, quer seja rodeando a fogueira ou tentando imitar o voar gracioso dos pássaros. Religião e dança desabrocharam juntas.
Mais tarde, os magos ansiaram entender porque as estrelas piscavam, intuindo corretamente, que existe ritmo na expansão do universo. Eles notavam música no farfalhar das árvores, na bruma prateada que desce da montanha gelada, no vaivém das marés, nos movimento dos girassóis, e obviamente, no canto dos sabiás. Os cultos se propagaram com muita dança.
Na Idade Média, físicos, matemáticos e filósofos descobriram leis fixas e passaram a descrever o universo como um enorme relógio. Com o enunciado da gravidade desvendaram-se alguns porquês da mecânica universal, descrita como uma roda dentada. Para eles, o mundo não passava de uma máquina sem graça; tudo engrenado na cadência de um tic-tac repetitivo; a vida seguia por trilhas conhecidas de causa e efeito. Presos à lógica e à linearidade empírica, descartaram a beleza do improviso e o encanto da surpresa. Na física newtoniana determinista não existe dança, nem bailarinos.
Só com a física quântica aprendeu-se que as sub-partículas atômicas bailam; e que os elétrons vaidosos, dançam aos pares. No imenso baile existencial, tudo improvisa diante do olhar atento da platéia. Não existe determinismo.
Por adotar a percepção mecânica da realidade, a religião prestou um desserviço à humanidade. No ocidente prevaleceu a espiritualidade especulativa e cerebral. A religião passou a competir com a ciência na fútil tentativa de controlar os processos cósmicos de causa e efeito. Com isso, lamentavelmente, grandes segmentos cristãos descartaram a celebração devocional, perdendo o encanto do mistério. Relegou-se aos místicos a adoração maravilhada de um Deus que excede a razão. Na ânsia de codificar a fé, esqueceram a noção de um Pai que organiza grandes festas e banquetes.
As Escrituras hebraica e cristã não revelam um Deus controlando o universo como um relojoeiro que dá corda numa máquina bem ajustada. Ele não se revela microgerenciando os atos humanos como um bondoso e esclarecido ditador. Na festa da criação, Deus fez música e tal qual um excelente Cavalheiro, convida seus filhos para o baile.
O Deus dançarino busca conduzir seus filhos com imperceptíveis toques nas costas, querendo, delicadamente, ensinar seus parceiros a quererem ser tangidos pelo som da sua orquestra.
Que privilégio dançar com Deus, sendo embalado pela fé, com a consciência de que nosso próximo passo será sempre inédito; sabendo que ninguém repetirá as pegadas que deixarmos no salão.
Continuo tímido, preferindo a previsibilidade cartesiana. Suspeito, entretanto, que serei muito mais feliz se aceitar o convite divino para a próxima valsa.
Soli Deo Gloria.

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