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terça-feira, agosto 28, 2007

Pablo Neruda em Confesso que vivi

"A timidez é uma condição estranha da alma, uma categoria e uma dimensão que se abre para a solidão. Também é um sofrimento inseparável, como se a gente tivesse duas epidermes e a segunda pele interior se irritasse e se contraísse diante da vida. Entre as estruturações do homem, esta qualidade ou este defeito são parte do amálgama que vai fundamentando, numa longa circunstância, a perpetuidade do ser".
"A poesia não é uma matéria estática, mas uma corrente fluida que muitas vezes escapa das mãos do próprio criador. Sua matéria-prima está composta de elementos que são e ao mesmo tempo não são, de coisas existentes e inexistentes".
"A inclinação profunda do homem é a poesia e dela saíram a liturgia, os salmos e também o conteúdo das religiões. O poeta ousou contra os fenômenos da natureza e nas primeira eras se intitulou sacerdote para preservar sua vocação. Daí que na época moderna o poeta, para defender sua poesia, tome investidura que as ruas e as massas lhe conferem. O poeta civil de hoje continua sendo o poeta do mais antigo sacerdócio. Antes compactuou com as trevas e agora deve interpretar a luz".
"...direi que a loucura, certa loucura, anda muitas vezes de braço dado com a poesia. É tão difícil as pessoas razoáveis se tornarem poetas quanto os poetas se tornarem razoáveis".
"De certo modo pensamos nos terríveis Cristos espanhóis que herdamos com chagas e tudo, com pústulas e tudo, com cicatrizes e tudo, com esse cheiro de vela, de umidade, de ambiente fechado que têm as igrejas... Esses Cristos também vacilaram entre serem homens ou deuses... Para fazê-los homens, para aproximá-los mais dos que sofrem, das parturientes e dos decapitados, dos paralíticos e dos avarentos, da gente de igreja e da que rodeia as igrejas, para fazê-los humanos, os escultores dotaram-se de chagas horripilantes até que tudo aquilo se converteu na religião do suplício, no peca e sofre, no não peca e sofre, no vive e sofre, sem que nenhuma escapatória o livrasse..."
"Quero viver num mundo sem excomungados. Não excomungarei ninguém. Não diria amanhã a esse sacerdote: 'O senhor não pode batizar ninguém porque é anticomunista'. Não diria a outro: 'Não publicarei seu poema, sua criação, porque o senhor é anticomunista'. Quero viver num mundo em que os seres sejam somente humanos, sem outros títulos a não ser estes, sem serem golpeados na cabeça com uma régua, com uma palavra, com um rótulo. Quero que se possa entrar em todas as igrejas e em todas as gráficas. Quero que não haja mais ninguém para esperar as pessoas na porta da prefeitura para detê-las e expulsá-las. Quero que todos entrem e saiam do Palácio Municipal sorridentes. Não quero que ninguém fuja de gôndola, que ninguém seja perseguido de motocicleta. Quero que a grande maioria, a única maioria, todos, possam falar, ler, escutar, florescer. Nunca entendi a luta senão para que esta termine. Nunca entendi o rigor senão para que o rigor não exista. Tomei um caminho porque acredito que esse caminho nos leva, a todos, a essa amabilidade duradoura".
"Se você, branca senhora, ou melhor, os seus tivessem sido sequestrados, golpeados e acorrentados por uma tribo mais poderosa e depois transportados para longe da Inglaterra para serem vendidos como escravos, mostrados como exemplos irrisórios da fealdade humana, obrigados a trabalhar debaixo de chicotadas e mal alimentados, que teria subsistido de sua raça? Os negros sofreram essas violências e crueldades e muito mais. Depois de séculos de sofrimento, eles no entanto são os melhores e mais elegantes atletas e criaram uma nova música, mais universal que nenhuma outra. Poderiam vocês, brancos como você é, ter saído vitoriosos de tanta iniquidade? Então: quem vale mais?".
( Nancy Cunnard citada por Pablo Neruda em Confesso que Vivi - sua autobiografia).

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