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domingo, setembro 09, 2007

Tolstoi

Apresentação de Clodovis Boff sobre o livro "O Reino de Deus está está nós" de Leon Tolstoi.
Tolstoi passa a se dedicar menos à literatura e mais ao gênero ensaístico. Entende sua tarefa de escritor como uma verdadeira missão religiosa. Já que não pode fazer mais, quer pelo menos pôr a pena a serviço de Deus. Escrever torna-se para ele, como afirma em seu Diário, uma "necessidade diante de Deus" (28/10/1895). Quando escreve, sente-se inspirado por Deus: 'Teço a todos os meus amigos, vizinhos e distantes... que prestem atenção àquela parte de minha obra na qual, eu sei, falava através de mim a força de Deus — e a utilizem para a sua vida..." (Diário, 27/3/1895). Até o fim de sua longa vida (viveu 92 anos) só de ensaios produziu mais de duzentos títulos. Sua obra completa chega a noventa volumes nas
"Edições de Jubileu" (Moscou, 1928-1958).

A não-violência tolstoiana se exprime na não-cooperação, na desobediência civil e particularmente no repúdio ativo a toda a servilidade. Tolstoi sabe que o poder se alimenta da aceitação e do consenso. Pior: da obediência cega e da submissão.

A ética de Tolstoi é radicalmente libertária. Para ele, a liberdade é um atributo inalienável e definitório do ser humano. Por isso, entre as frases que pôs no frontispício do livro, lemos esta de São Paulo: "Não vos torneis servos dos homens"
(ICor 7,23).

Tolstoi não acredita nos efeitos libertadores de uma revolução violenta, mesmo de tipo popular. Considera-a, em primeiro lugar, politicamente inviável, levando-se em conta a complexidade e a potência do Estado moderno. Em segundo lugar, tem-na por ineficaz, pois instauraria necessariamente uma opressão mais cruel que a anterior.


Tolstoi foi um antimilitarista absoluto. Junto com o serviço militar, recusa qualquer legitimação à guerra. Se a cultura moderna a legitima por vários títulos (cap. VI) é porque é fútil e destituída de vigor ético. Pressentiu para onde poderia levar a mentalidade belicista das potências européias no fim do século passado. Chegou a prever profeticamente (pelo fim dos cap. X e XII) o horror de um conflito mundial, que efetivamente irrompeu com a primeira Grande Guerra.


O homem livre e justo há de viver ignorando o governo./Não combatê-lo de frente, mas no princípio interno que o sustenta: o reconhecimento, a obediência. Nisso Tolstoi se aproxima claramente de H. Thoreau (11862) e sua "desobediência civil".


Para Tolstoi, a igreja é outro sustentáculo da violência, , na medida em que a mistifica, através de sua prédica pseudo- evangélica, e a sacraliza, com seus rituais "supersticiosos" e '"idolátricos". Por isso, a crítica tolstoiana à igreja é igualmente arrasadora (cap. III). Concerne não apenas a esta ou àquela igreja concreta, mas à idéia mesma de igreja (cap. III). Em suas palavras, "cada igreja, como igreja, sempre foi e não pode deixar de ser uma instituição não só alheia, mas até diretamente oposta à doutrina de Cristo”. As igrejas não seriam apenas infiéis a Cristo, mas até hostis ao cristianismo. Seriam fundamentalmente anticristãs. E se nelas se encontram pessoas santas e boas, isso se deveria à própria virtude dessas pessoas e não à sua pertença à igreja. São João Crisóstomo, São Francisco seriam bons apesar da igreja e não por causa dela.

Para Tolstoi, as igrejas são instituições intrinsecamente mentirosas. Sua função não é de revelar a doutrina de Cristo, mas antes de escondê-la, enganando as pessoas, mentindo ao povo. Todo o rico sistema simbólico da igreja: velas, cantos, bandeiras, sinos, paramentos, procissões, pinturas etc. é virulentamente atacado como um meio para "hipnotizar", impressionar e adormecer a consciência do povo. E lança às igrejas um repto final: têm que escolher entre o Sermão da Montanha e o Símbolo de Nicéia, entre o Evangelho e o Dogma.

Seu extremismo tem uma função singularmente catártica para as igrejas. É um apelo à conversão e à fidelidade às mais altas exigências do Evangelho. Na verdade, a nenhuma instituição se aplica melhor o adágio: corruptio optimipessima (a corrupção do ótimo é péssima).

Para Tolstoi, a religião cristã se entende essencialmente como profecia (cap. V). Não no sentido de prever o futuro, mas de antecipá-lo. O profeta é o que antevê em que direção vai o curso das coisas. Nisso se antecipa às maiorias. Essas, em virtude mesmo da profecia, acabam vendo o que ele já via. É sempre um precursor, um ser inaugural. Por isso mesmo só pode ser compreendido depois. Seu êxito só pode ser póstumo. Por isso, para Tolstoi, a religião, porque profecia, é sempre exigência infinita, chamado para frente, busca do sempre mais, antecipação do que virá.

Para Tolstoi, o cristianismo não é uma doutrina abstrata (para se saber), mas uma proposta prática (para se viver). Parafraseando uma célebre tese de Marx, a fé não pode se contentar em interpretar o mundo, mas deve, isto sim, mudá-lo (cap. V). Daí o subtítulo original ao livro em estudo: "O cristianismo apresentado não como uma doutrina mística, mas como uma moral nova."

A mensagem evangélica não é coisa de igreja, mas coisa comum de todos. É patrimônio da humanidade, que, na verdade e em seu prejuízo, dele faz pouco caso. Não se trata, pois, de uma moral meramente corporativa, mas realmente universal, pois que foi anunciada no mundo e para o mundo. Por isso também ela não se dirige somente ao indivíduo, mas a toda a sociedade. Isso vale inclusive no que tange às supremas exigências do Sermão da Montanha, à condição, porém, de não transformá-las numa nova jurisprudência, mas também de não reduzi-las a simples figuras de linguagem (cap. II)./Nesse sentido, o pensamento tolstoiano contribui para destruir o monopólio eclesiástico ou clerical do Evangelho, a fim de colocar este livro de vida nas mãos de todos e assim universaliza-lo.

Certamente o Reino está "em nós", mas não está também para além de nós? E não é nessa última dimensão que está o segredo da força éticoprofética do cristianismo, impedindo-o de cair no simples moralismo?

Para Tolstoi, a revolução começava nas consciências. Ela constituía antes de tudo um imperativo ético de justiça e, mais radicalmente ainda, de verdade. Sabemos de sua imensa atividade no campo da promoção da educação popular.

Tolstoi apresenta um lado surpreendentemente "ecologista". Pronunciou-se contra o progresso técnico indiscriminado, fez o elogio do amor à terra e da vida ligada à natureza, propôs o vegetarianismo, fez oposição à caça de animais, enfim, considerava que todo ser vivo tem direito a viver.

o autor de O Reino de Deus Está em Vós? Nenhum sistema social muito definido. Como profeta que é, ele simplesmente grita: *'Convertei-vos, senão todos perecereis!" (Lc 13,3 e 5). Tolstoi pede a mudança de vida de cada um. A revolução não é para depois, é para já. Arranca da vida de cada um. A "saída" que indica o profeta é, pois, a entrada no Reino que vem chegando. Ora, no portão de acesso ao Reino está escrito com letras de fogo: "Convertei-vos, pois o Reino está próximo!''(Mc 1,15)

Como para Cristo, o que dá urgência ao apelo da conversão é o agudo sentido do "kairós": "Completaram-se os tempos. O Reino de Deus está às portas!" (Mc 1,15). Os tempos estão maduros e está na hora de acordar. Nisso Tolstoi emerge como um profeta verdadeiramente apocalíptico. Ele anuncia a iminência do mundo novo. "Os campos já estão brancos para a ceifa" (Jo 4,35). E "quando o fruto está maduro, metese-lhe a foice, pois é tempo da colheita" (Mc 4,29).

Mas, em que consiste precisamente a conversão a que convoca Tolstoi? Essencialmente nisso: Dizer a verdade, não mentir. Pois só assim — acredita — se rompe o círculo da "metafísica da hipocrisia" em que está enredado o mundo moderno. O apelo de Tolstoi é este: Viver à luz da verdade, sem máscaras. Ele acredita que assim, à força da verdade, as relações na sociedade se transformarão. Por isso, pôs no frontispício do livro esta outra máxima: "E conhecereis a verdade e a verdade vos fará livres" (Jo 8,32).

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