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sexta-feira, novembro 16, 2007

Lembrando que sou pó.

Ricardo Gondim

Agora sei que sou quebradiço como biscoito na mão de criança, efêmero como bandeirolas que se desfazem na ventania. Descobri que meu peito pode se desmanchar com qualquer chuva forte, e que não passo de um grafite na calçada, desenhado para sumir debaixo de pegadas alheias. Não falta muito para que se esgotem meus dias, e sem canção de ninar, fecharei os olhos para essa terra.
Alucinei como um Quixote enlouquecido, mas o mundo me venceu. Não desmontei nenhum cartel de cocaína, não desbaratei nenhum comércio internacional de armas, não acabei com a prostituição infantil, não trabalhei em nenhuma clínica para aidéticos na África. Plantei igrejas, mas como agente transformador da história só consegui arranhar a superfície. Enviei missionários, mas sobraram poucos, a maioria foi engolida por culturas fortíssimas e histórias milenares. Pela falta de recursos financeiros, fizemos um mínimo.
Trabalhei como um messias onipotente, mas me cansei nessa arrogância. Não vi meus três filhos crescerem porque desejava pregar em congressos que, só hoje vejo, serviam mais para inflar egos do que ajudar na construção do Reino. Viajei centenas de milhares de milhas para, abatido, assistir o avanço desenfreado de uma teologia mercantilista, egocêntrica, dogmática e fundamentalista. Deixei minha mulher chorando em casa porque me acreditava essencial em um evento que, olhando para trás, não passava de uma programação para fortalecer instituições humanas. Deixei, muitas vezes, minha cama e meu travesseiro para dormir em hotéis baratos, porque me via como Atlas, tendo que carregar o mundo nas costas. Fiz poucos amigos porque achava que precisava atender todas as pessoas. Lamento não ter tido tempo para conversar nos fins de tarde com minha querida avó, que tanto pediu minha presença. Eu me sentia obrigado a visitar um membro de minha igreja que nunca me considerou seu amigo. Ele só queria usar um pouco de minha falsa onipotência.
Vivi como um deus imortal e acordei tardiamente para minha finitude. Com trinta anos de idade, considerava que a velhice esperaria séculos para visitar-me. Agora, aos cinqüenta e dois, ela me acena de uma esquina chuvosa e fria. Como fui tolo de acreditar que podia desperdiçar momentos preciosos e que meu calendário se prolongaria para sempre.
Desisto de meus quixotismos, falsa onipotência e dos desejos de ser eterno.
Assim, tomo algumas decisões.
1. Continuarei lutando sem a pressão de ter que dar certo. Farei o bem porque vale a pena, mesmo que não haja nenhuma recompensa. Desejo terminar minha caminhada ao lado de pessoas queridas e sentir-me como naqueles filmes em que um punhado de heróis idealistas se prepara para enfrentar, e provavelmente ser esmagado, por um exército e um deles diz ao outro, acreditando ser suas últimas palavras: "Foi uma honra lutar ao lado dos senhores".
2. Para eu aceitar qualquer compromisso de participar ou falar em alguma conferência, usarei dois, unicamente dois, critérios: a) as aspirações, caminhada e intenções daquele evento contribuem com os anseios mais profundos da minha alma? b) estarei entre amigos que preferem uns aos outros em honra?
Quero preparar-me para o último tempo de minha vida. Não tenho mais tempo para comportar-me como neófito porque, como dizem os americanos, “The stakes are too high!” (as apostas estão altas de mais).
Soli Deo Gloria.

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