RECOMENDE!

domingo, novembro 25, 2007

Presentes no Mundo

Por Ed René Kivitz
"Prega o evangelho durante todo o tempo: se necessário, use as palavras" (São Francisco de Assis)
Cristãos devem fazer diferença. Não fosse a presença cristã, o mundo estaria não apenas em decadência ainda mais acelerada, como também, absolutamente impossibilitado de conhecer a Deus. No Sermão do Monte o Senhor Jesus oferece as bases do testemunho cristão no mundo. (Mt 5.14-16). A finalidade do testemunho é a glória de Deus: "para que glorifiquem a vosso Pai que está nos céus". O conteúdo do testemunho são as boas obras: "para que vejam as vossas boas obras". Mas o pré-requisito para o testemunho é a luz : "assim resplandeça a vossa luz diante dos homens, para que vejam as vossas boas obras, e glorifiquem a vosso Pai, que está nos céus".
O conceito cristão de boas obras é muito abrangente. Paulo escreve a Tito afirmando que o Senhor Jesus "se deu a si mesmo por nós para nos remir de toda iniqüidade, e purificar para si um povo todo seu, zeloso de boas obras". (Tt 2.14). O texto mais esclarecedor, entretanto, é Efésios 2.1 -10, ele diz que não somos salvos por causa de obras, mas "para as boas obras, que Deus preparou de antemão para que andássemos nelas".
"Boas obras" entram em contraste com "delitos e pecados" nos quais andávamos antes de Cristo (2.1). E este "contraste é completo. É um contraste entre dois estilos de vida (o mau e o bom) e, por trás deles, dois senhores (o diabo e Deus)", comenta John Stott em "A mensagem de Efésios",. ABU Editora, 1986. p.57). Sendo assim, "boas obras" não são apenas uma alusão à solidariedade e à caridade. "Boas obras" dizem respeito à totalidade da vida do cristão. Referem-se a tudo quanto um cristão faz: "quer comais quer bebais, ou façais qualquer outra coisa, fazei tudo para a glória de Deus"(1Co 10.31).
Voltando ao Sermão do Monte, a leitura superficial do texto sugere que as boas obras dos cristãos são a luz que os homens vêem para que possam glorificar a Deus. O Senhor Jesus, entretanto, afirmou que os homens somente conseguiriam ver as boas obras caso a luz resplandecesse. O brilho da luz possibilita a visibilidade das boas obras.
Os cristãos é que são luz, não são as sua boas obras. O que os cristãos são, ilumina o que os cristãos fazem. O Senhor Jesus se utiliza das Bem-Aventuranças para descrever quem é o cristão. Em seguida, afirma que pessoas com aquela essência (luz) agindo no mundo (boas obras) causariam um impacto inescondível, o que resultaria em glória para Deus, que está nos céus. Em outras palavras, o que "fazer" somente resulta em glória para Deus quando iluminado pelo "ser". Essa constatação traz pelo menos três implicações para a ética cristã.
O Ser Precede o Fazer Na ética cristã, o ser precede o fazer, sob pena de que o fazer caia no vazio ou, pior, em contradição com o ser, além de ser um peso excessivo para quem faz. A ação cristã despida de caráter anterior que a qualifique é incipiente porque não é possível de ser registrada. A mensagem mais forte suplanta a mais fraca, e nesse caso, a mais forte diz respeito ao ser, de modo que o fazer sem o ser cai no vazio.
O ser precede o fazer. O cristão, portanto, deve agir tendo cuidado das intenções, do caráter e dos meios que possibilitam a ação. O cristão deve agir, mas deve antes certificar-se de que seu estilo de vida credencia sua ação e fala. A contradição entre o ser e o fazer faz lembrar a mãe que belisca a criança no colo. É a chamada "mensagem de duplo vínculo": o carinho do colo e a agressão do beliscão. A contradição entre as mensagens gera confusão psíquica e emocional. O cristão que age em desacordo com o que é lança uma mensagem difícil de ser acreditada. O ser precede o fazer.
O cristão portanto age em conseqüência de que, tal qual árvore, é fruto. A impossibilidade do mundo natural não acompanha a realidade da ação humana: laranjeiras não dão limões, mas pessoas ruins podem agir com bondade, egoístas podem doar, invejosos podem aplaudir e rancorosos podem abraçar. A violência contra si mesmo é dotada de conseqüências funestas. Quem abre mão sem antes experimentar a mansidão, por exemplo, carrega consigo um crônico sentimento de perda. O ser precede o fazer para que a ação não seja esvaziada, confundida nem pesada.
O Ser Esclarece o Fazer. Na ética cristã, o ser esclarece o fazer. Não são poucos os exemplos de ações semelhantes com repercussões desiguais. A força da mensagem está respaldada pela intensidade da militância. Martin Luther King Jr., Nelson Mandella, Malcom X, tiveram suas mensagens amplificadas pelo fato de que suas vidas estiveram e estão comprometidas com a causa esposada. A identificação solidária com pobres não vale nada na boca de teólogos de gabinete. Não é por menos que o apóstolo Paulo insistiu em ser seguido no que falou e mostrou. O evangelho não é algo para ser ouvido é para ser visto. Aprendera isso do seu Mestre, que ensinava com a autoridade peculiar, àqueles, cujas ações e palavras, são como água a jorrar do fundo do ser.
O Ser, Faz Finalmente, na ética cristã, o ser, faz. Nada mais óbvio. Quem é misericordioso age com solidariedade. Quem é pacificador aproxima pessoas. E assim por diante. O mais notável, entretanto, é que a ação genuinamente cristã é decorrente. Veja, por exemplo, que Jesus de Nazaré não apenas serviu, ele se fez servo. Sua ação que priorizava o outro, em detrimento de si mesmo, não era uma auto-violência mas uma expressão natural do ser.
São Francisco estava certo. Conseguiu interpretar o espírito iluminado cristão: "Prega o evangelho durante todo o tempo: se necessário, use as palavras".

Nenhum comentário: