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domingo, janeiro 13, 2008

A casa de três portas - Um conto metafísico

Inspirado no exercício metafísico com o mesmo nome.
Quem nos contou sobre ele foi o André Maciulis,
e desconhecemos qualquer outra origem.

Adaptação de Ana Maria Prandato

Um fotógrafo viajou por vários dias até chegar ao pequeno povoado, que era o seu destino.

Primeiro foi o avião, com o qual deixou para trás a grande e moderna cidade onde vivia. Depois foram ônibus, carros e outros pitorescos meios de transporte dos quais precisou se valer pra atingir aquele lugar distante e isolado, que já parecia ser o fim do mundo. Até uma travessia de barco ele fez, e completou seu trajeto montado, desajeitadamente, no lombo de uma mula.

Chegou então, finalmente! Cansado, sim, mas feliz. Estava realizando um projeto de anos. Desde que ouvira falar daquele lugar desconhecido onde, afirmavam, as pessoas viviam muito mais tempo do que o considerado normal, convivendo em harmonia com uma natureza especialmente bela e desfrutando de um ângulo privilegiado da Terra, do qual podiam ver o Sol nascer e se pôr numa amplitude magnífica, ah!, desde esse dia ele sonhou com as fotos que poderia fazer ali - e com o sucesso que poderia obter, ao publicá-las para o mundo.

Munido de equipamento avançado e possante - o que havia de melhor em câmeras e lentes - tratou logo de conhecer tudo.

Com o passar dos dias, ele ficava cada vez mais encantado! Havia beleza por toda parte. Além das belezas naturais, as pessoas eram bonitas - como eram bonitos, também, os trabalhos que elas faziam: utilidades, produzidas artesanalmente, com um capricho e um requinte dignos de exposições.

E tudo ia muito bem, até que voltaram os sintomas de uma antiga doença que o perseguia, e que seu médico já havia dado como extinta.

"Agora sim!" - pensou ele. Sem hospitais, sem helicópteros para socorro urgente, sem sequer um telefone! "Como é que vai ser?"

Nem médico havia ali. Seguindo a sabedoria de seus ancestrais, curavam pequenos machucados e eventuais desarranjos da saúde com chás e pastas feitas de folhas, flores e raízes.

Como seu estado piorava, levaram-no até a pessoa considerada a mais sábia entre todas, e o tratamento recomendado por ela foi perturbador: "Saindo do povoado na direção da floresta, você encontrará a casa de três portas. Ali receberá o seu remédio, mas só se estiver na porta certa, na hora da entrega."

Não havia o que escolher, e estava ele em frente à tal casa. Três portas, realmente. Chegando pertinho, viu que em cada uma delas estava escrita uma palavra: "Passado", "Futuro"... e a terceira estava bem apagada, impossibilitando a leitura.

Sem saber direito em qual entrar, lembrou-se: "Ali receberá o seu remédio, mas só se estiver na porta certa, na hora da entrega." Como o remédio chegaria - ele já estava começando a acreditar - deduziu que a porta certa só poderia ser a do futuro. Claro! E entrou.

Era uma sala ampla, cheia de luzes tão fortes que ofuscavam a visão.

Uma sensação estranha se apossou dele. Tudo era fantástico demais, um cenário riquíssimo, mas incompreensível. Teria piorado tanto, a ponto de perder a lucidez? Seriam alucinações causadas por aquela febre intermitente?

As paredes eram revestidas de espelhos, que pareciam feitos do mais puro cristal. Viu-se refletido neles, mas, confuso, notou que seu reflexo não correspondia aos seus movimentos... Aos poucos, a situação se invertia: sua imagem refletida é que se movimentava, enquanto o seu corpo sentia tudo - sem mover um único músculo! Viu-se subindo numa escada imensa, com grande esforço, e - de repente - viu a escada sumir sob seus pés, experimentando o pavor de cair sem ter onde se agarrar.

Assustadíssimo, teve a certeza de que estava participando de algo incomum quando recebeu a primeira mensagem telepática. Mas ele nem acreditava em telepatia!!! Sentiu-se tão desconfiado quanto o seu avô, que ainda não acreditava em Internet...

A mensagem foi breve e clara: "Essa escada representa suas ilusões". Ah, não era possível... Teriam posto algum alucinógeno na sua água?

Sem querer encarou um outro espelho e, chocado, viu-se velho, doente e sozinho... Passou a sentir fortes dores, enquanto sua mente era tomada por pensamentos tristes; queixas de traição, abandono, ingratidão, falsidade; desejo de ser amado e acolhido e, ao mesmo tempo, a conclusão amarga de que nenhum ser humano é digno de confiança.

Uma angústia espessa parecia sufocá-lo, quando recebeu a segunda mensagem: "Esse é o futuro que você está construindo com seus medos". Não, era ruim demais! Trocaria o medo pela prudência... estaria atento quanto às ilusões... e queria sair dali.

Ao voltar pra fora, parecia aguardá-lo nova comunicação, desta vez num tom desconcertante: "Você não estava na porta certa para receber seu remédio. Uma última tentativa será feita mais tarde".

Sentia-se mal. Precisava de um alívio urgente e, mais uma vez tendo de decidir em qual das portas iria entrar, achou que poderia encontrar sua cura procurando no passado o motivo da sua doença.

A sala, agora, era atravancada e sombria. O ar era pesado. Havia espelhos, também, mas estes pareciam embaçados - não refletiam as imagens com muita nitidez.

Quando forçou a vista, viu que estava certo: os espelhos exibiam, realmente, cenas da sua vida - como num filme já deteriorado, que estivesse sendo rodado continuamente, sem ninguém no comando do projetor... Entre cortes, falhas e sombras, passava e repassava aquela fita... Na maior parte do tempo, o que ele sentia era um desconforto doloroso a oprimir-lhe o peito. Mágoas, revolta, culpa, decepções, humilhações, ressentimentos, perdas - a maioria dos temas era assim. E ele, cada vez mais desolado. Até que...

Num impulso, saiu da prostração em que caíra. Aproximou-se do espelho, fixou o olhar e, como se tivesse parado o filme com um clique, pôde ver claramente aquela figura tão querida... Seu coração se abriu, como se estivesse sorrindo, mesmo, e o que ele podia perceber agora era um sentimento alegre... alguma coisa bem parecida com felicidade...

Puxa! Aquele rosto... a mesma luz! O mesmo jeito de sorrir, de olhar... A mesma alegria de estar junto!

Teve a nítida impressão - quase certeza - de que poderia conversar com ela ali, naquele instante! Podia senti-la tão viva, tão receptiva, tão presente... Desejou profundamente abraçá-la - e o impacto do seu corpo contra o vidro frio fez com que as lágrimas fossem caindo, espontâneas, até que esgotassem todo o choro reprimido há anos.

Ficou assim, sem saber por quanto. O silêncio, as sombras... Não quis mais olhar para o espelho, onde as projeções se repetiam... repetiam... repetiam... Nenhuma mensagem.

Levantou-se do chão onde estava sentado e, inexplicavelmente, sentiu-se forte. Afirmou pra si mesmo que nada daquilo existia mais, na realidade. Tudo já havia passado, e ele vinha carregando todas aquelas impressões dentro de si, num sofrimento inútil. Nada mais poderia ser modificado, ou evitado; nada poderia ser feito de outra maneira.

Transpôs a porta, e o ar fresco que havia fora aumentou o seu bem-estar. Lembrou-se "dela", e novamente pôde sentir o coração sorrindo. Essa era uma lembrança que ele queria guardar.

O momento terno foi surpreendido por outra daquelas comunicações telepáticas: "Mais uma vez, você não estava na porta certa. Agora terá de descobrir o seu remédio sozinho."

Ficou atordoado. O que era tudo aquilo que estava acontecendo? Que estranho lugar era aquele, que estranha gente, que estranhos costumes?

Bem, tudo parecia estar mesmo perdido. Se havia, de fato, algum remédio capaz de curá-lo, ali, as oportunidades lhe escaparam. Já se surpreendera tanto, já perdera tanto do senso de real que até então sustentara, que resolveu encarar o que quer que houvesse por trás daquela última porta.

Nada. Nenhum espelho, nenhuma imagem, só luz... Uma claridade viva, convidativa, e um sentimento bom de liberdade - uma intuição forte e tranqüilizadora de que era ali que tudo acontecia - o fazer e o desfazer, o pegar e o largar, a escolha e a criação.

Quanto mais ele se percebia ali, maior era o ânimo que vibrava no seu corpo todo. Teve fome, e riu - mas esqueceu da fome totalmente quando a cabeça já ia a mil, cheia de idéias, de projetos, numa vontade urgente de criar. Pensou que podia aproveitar os últimos raios do Sol para fotos belíssimas, e saiu apressado.

Quando a porta bateu por trás das suas costas, alguma coisa se desprendeu dela - como fosse uma poeira há muito acumulada - e a inscrição talhada na madeira era agora inconfundível: "Presente".

O olhar, treinado para captar belezas, estava ainda mais sensível. O homem conquistara de volta tesouros, bens preciosos. Entre eles, a consciência de si mesmo, do seu tempo, do seu momento. A consciência da sua própria força, e da sabedoria sempre presente no seu coração. E, dentro do coração, a certeza de estar curado - de tudo!

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