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segunda-feira, janeiro 14, 2008

MENSAGEM DE TIAGO AO BRASIL

Tiago escreve para os que, na ânsia de viver pela fé, se esquecem de aspectos essenciais da vida cristã: viver para servir, como propunha a ética dos profetas. O viver cristão, para Tiago, era um viver integral. Não podia limitar-se às aparências religiosas e tampouco às abstrações insípidas. Tiago esclarece que as boas obras não salvam ninguém. Mas a um cristão cabe manifestar sua identidade de servo (de Deus e do próximo), de interessar-se pelo sofrimento dos oprimidos, de ouvir o clamor dos calados e carregar a angústia dos desfavorecidos.

Em momento algum ele sugere que a igreja irá transformar o mundo em um paraíso. A igreja, porém, tem uma mensagem, uma conduta e um padrão aplicável a qualquer homem (de todas as culturas e classes sociais) e em qualquer época da História. A igreja tem uma marca: as manifestações de misericórdia, e o rompimento com o indiferentismo das culturas em face da miséria legada a multidões para favorecimento de alguns poucos.

A sensibilidade social do cristão não se origina nos discursos filosóficos ou políticos, mas sim da consciência de que tal comportamento está enraizado no coração do Senhor Jesus: "Toda a boa dádiva e todo o dom perfeito vem do alto" (1:17). Em seguida, Tiago alerta para as pré-condições para que isso aconteça: "Por isso, rejeitando toda a imundícia e superfluidade de malícia, recebei com mansidão a palavra em vós enxertada, a qual pode salvar as vossas almas" (1:21).

Uma consciência social que não seja fruto da fé não significa nada para Deus; da mesma forma, uma "Super Fé", que mantenha o indivíduo indiferente ao sofrimento humano, é morta. "E sede cumpridores da palavra, e não somente ouvintes, enganando-vos com falsos discursos" (1:22).

A definição que Tiago faz da Religião que agrada a Deus é objetiva e sem rodeios: "A religião pura e imaculada para com Deus, o Pai, é esta: Visitar os órfãos e as viúvas nas suas tribulações, e guardar-se da corrupção do mundo" (1:27). Não está guardando-se da corrupção do mundo quem reproduz no Evangelho o discurso ideológico de desprezo pelos pobres.

Tiago recorre à à Ética dos profetas quando se refere aos órfãos e viúvas, que no Antigo Testamento eram os principais desfavorecidos e tragáveis pelas artimanhas das elites (através de dívidas e servidão).

Órfãos e viúvas estão aos milhões no Brasil, na forma de desempregados, analfabetos, desnutridos, crianças prostituídas, etc... E a Igreja deixa-se impregnar com a corrupção deste mundo quando não visita os órfãos e viúvas, ou seja, quando mantém-se alheia e indiferente ao caos que desintegra a identidade dos oprimidos deste país.

Dificilmente se vê, no meio evangélico, uma pregação do tipo: "você, que é um empresário desonesto, será transformado em uma pessoa digna; você, que é um patrão autoritário e obtuso, que desrespeita seus empregados e sequer paga o salário digno do trabalhador e seus respectivos direitos sociais, será transformado em um homem probo; você, que é um político corrupto, que pratica o nepotismo, desvia dinheiro e submete-se ao lobby dos poderosos, se transformará em uma pessoa honrada aos olhos de Deus; você, que é um fiscal, um oficial de justiça, juiz, advogado, promotor, ou qualquer outro cargo público, e aceita suborno, ficará livre desses hábitos", etc...

É porque somos ideologizados; acatamos a moral da sociedade brasileira que vê como pecado somente os crimes contra a propriedade privada e as imoralidades sexuais. Os crimes de dimensões "macro", cometidos pelas elites, não nos causam espanto. "A vida é assim mesmo; política é assim mesmo", costumamos nos conformar. Além de sermos ideologizados, admiramos o opressor. Não importa o quão cruel uma pessoa seja, desde que traga benefícios à igreja.

É por isso que hoje muitos membros da elite brasileira estão se convertendo (ou aderindo às modinhas de alguns grupos evangélicos) e seus macropecados não estão sendo discutidos. Líderes e igrejas ficam radiantes de alegria, pois ao invés de contestarem o drama social em que alguns enriquecem com o empobrecimento das massas, extasiam-se com a notícia de que uma tal celebridade tornou-se evangélica. Essas pessoas passam a fazer parte de nossas igrejas, mas continuam maltratando seus empregados, desrespeitando os direitos do trabalhador, aceitando subornos, etc... O meio evangélico brasileiro é vergonhosamente conformista.
Tiago não era. Se ele vivesse nos dias de hoje, entraria em pânico. Falta-nos a sensibilidade e simplicidade dos primeiros cristãos. Falta-nos a esperança dos profetas, o pavor à exploração, à corrupção. Falta-nos a decência de sermos imunes a isso tudo.

Tiago elenca o que deve ser a prioridade do verdadeiro cristão. A dignidade humana transcende à condição social: "Mas glorie-se o irmão abatido na sua exaltação" (1:9). E: "não tenhais a fé de nosso Senhor Jesus Cristo, Senhor da glória, em acepção de pessoas" (2:1), principalmente dentro das dependências físicas da Igreja: "Porque, se no vosso ajuntamento entrar algum homem com anel de ouro no dedo, com trajes preciosos, e entrar também algum pobre com sórdido traje, e atentardes para o que traz o traje precioso, e lhe disserdes: Assenta-te tu aqui num lugar de honra, e disserdes ao pobre: Tu, fica aí em pé, ou assenta-te abaixo do meu estrado, porventura não fizestes distinção entre vós mesmos, e não vos fizestes juízes de maus pensamentos?" (2:2-4).

O "irmão" rico, mas insensível, é mundano. Riqueza, enquanto objeto de atenção que sobrepuje à Fé, é insignificante: "porque ele passará como a flor da erva. Porque sai o sol com ardor, e a erva seca, e a sua flor cai, e a formosa aparência do seu aspecto perece" (1:10,11a) e ao mesmo tempo, vazia: "assim se murchará também o rico em seus caminhos" (1:11b).
Assim, cabe à igreja superar a ideologia mundana no que se refere a concepções e comportamentos acerca das disparidades sociais. "Meus irmãos, que aproveita se alguém disser que tem fé, e não tiver as obras? Porventura a fé pode salvá-lo?" (2:14). Ora, as obras brotam da fé, e a verdadeira fé nasce de uma total submissão ao que está no coração de Deus; é ver o mundo como Deus o vê; é ler a História como Ele a lê; é construir práticas como Ele sonhou.

O mundo jaz no maligno! A voz da ideologia de cada época ecoa das tumbas de onde Satanás brada. A Igreja, se for realmente comprometida com o Evangelho, há de superar isso. Nela, a mentalidade corrompida pela ideologia não pode vigorar: "Ouvi, meus amados irmãos: Porventura não escolheu Deus aos pobres deste mundo para serem ricos na Fé, e herdeiros do reino que prometeu aos que o amam?" (2:5). Naturalmente, Tiago não está fazendo uma apologia à pobreza, mas simplesmente ressaltando que a verdadeira riqueza é a Fé que nasce no coração de Deus e chega ao coração do homem imune à mentalidade e ideologia mundanas! Infelizmente, a prática corrupta dentro da Igreja já estava florescendo no primeiro século: "Mas vós desonrastes o pobre" (2:6). Daí, o trabalho de Tiago em fazer com que os cristãos amadurecessem, saindo da ideologia para a verdadeira consciência:

"Porventura não vos oprimem os ricos,
e não vos arrastam aos tribunais?
Porventura não blasfemam eles o bom nome
que sobre vós foi invocado?" (2:6b-8).

O verdadeiro servo de Deus presta auxílio ao necessitado em silêncio, sem cogitar qualquer possibilidade de ser reconhecido por isso. Auxiliar ao necessitado é obrigação, não é heroísmo! A consciência social é uma das muitas facetas da fé: nasce no coração de Deus e chega ao coração do homem e, em determinado momento, gera desconforto e revolta pela realidade em que vivemos. Um de seus primeiros frutos é o desejo de servir aos irmãos na Fé que estão em necessidade (2:15,16).
Lutero deixou claro que a Fé liberta o homem, mas o amor o compromete com o próximo. Para Tiago, Fé e Obras são complementares: "Assim também a fé, se não tiver as obras, é morta em si mesma" (2:17). Fé e Obras têm a mesma origem e atendem ao mesmo fim: "Mas dirá alguém: Tu tens a fé, e eu tenho as obras; mostra-me a tua fé sem as tuas obras, e eu te mostrarei a minha fé pelas minhas obras" (2:18). Qualquer conceito ou teologia que desarticule estes dois elementos está fora dos padrões de Deus: "Mas, ó homem vão, queres tu saber que a fé sem as obras é morta?" (2:20). Qualquer ação humana que não atenda a esses dois requisitos torna-se desprezível aos olhos de Deus: "Vedes então que o homem é justificado pelas obras, e não somente pela fé" (2:24). Enfim, Fé e Obras são simbióticas: "Porque, assim como o corpo sem o espírito está morto, assim também a Fé sem obras é morta" (2:26).
Para encerrar, vejamos o quão atual é o discurso de Tiago para a insensibilidade das elites e, conseqüentemente, para a irresponsabilidade da igreja. As palavras a seguir não são de militantes partidários da esquerda ou de movimentos sociais; são a própria palavra de Deus:

"EIA, pois, agora vós, ricos,
Chorai e pranteai por vossas misérias que sobre vós hão de vir.
As vossas riquezas estão apodrecidas,
e as vossas vestes estão comidas de traça.
O vosso ouro e a vossa prata se enferrujaram;
e a sua ferrugem dará testemunho contra vós,
e comerá como fogo a vossa carne.
Entesourastes para os últimos dias.
Eis que o jornal dos trabalhadores
que ceifaram as vossas terras,
e que por vós foi diminuído, clama;
e os clamores dos que ceifaram entraram nos ouvidos do Senhor dos Exércitos.
Deliciosamente vivestes sobre a terra,
e vos deleitastes;
cevastes os vossos corações,
como num dia de matança.
Condenastes e matastes o justo;
ele não vos resistiu"
(Tg 5:1-6)
POR: RODRIGO BRANDT

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