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terça-feira, janeiro 15, 2008

Para além de toda definição

Fábio de Melo.

A definição é sempre uma forma de aprisionamento. Definir é estabelecer uma cerca, impedindo que a realidade definida se mova em direção a outras. Isto é uma cadeira e não pode ser uma mesa. Pronto, delimitamos o significado para acalmar nossa mente que é tão ávida por definir.

Gosto de pensar as coisas fora da sua definição, só para ter o prazer de ver como se comportam os definidores obcecados. Hoje não vamos sentar nas cadeiras. Vamos sentar no chão e as cadeiras serão nossas pequenas mesas. Aí, teremos a possibilidade de revisitar nossa infância, naquele tempo em que ainda não aprisionávamos a realidade em nossas definições.

Acredito piamente que a razão positivista, que sempre se esmera em definir de maneira empírica e clara toda e qualquer realidade, não deve suportar as crianças, nem a criatividade delas.

Elas, definitivamente, se opõem de forma radical ao saber positivo, delineado e preestabelecido, porque estão abertas à possibilidade de que uma cadeira não seja apenas uma cadeira. Coisas de crianças, coisas de filósofos, que nós, adultos, não podemos entender.

Quem cresceu demais perdeu a filosofia, essa capacidade de ver as coisas e as realidades para além daquilo que mostram. Deixou de ser metafísico, sonhador e se fixou no aprisionado mundo das definições claras e sem graça, onde nada tem o direito de ser mais do que aquilo que se mostra.

Para esses, o símbolo não fala por si mesmo, tem de ser explicado. Aí a densidade do símbolo já se foi, perdeu-se na explicação, foi racionalizada. O símbolo não é para ser explicado, mas sim apreendido pelos cinco sentidos do existir humano e depois transportado à realidade a que ele aponta.

Ele é ponte que leva ao mundo das indefinições, onde Deus vive livre de todo e qualquer conceito que dele estabelecemos.

Deus é a surpresa, o inesperado que emerge do cotidiano e que desorganiza o mundo dos humanos com uma nova lógica, em que nem tudo pode ser matematicamente compreendido. Deus está para além de todo cálculo. Ele mora na curva, aonde os nossos olhos não chegam de forma retilínea.

Ele é a palavra que desconcerta no gesto de se encarnar para divinizar o humano. Talvez seja por isso que a linguagem simbólica seja a primordial forma de descrever as realidades divinas. O que podemos conhecer de Deus nós o fazemos por analogia. A partir de elementos e conceitos temporais, esmeramo-nos em descrever Deus e o mistério de sua grandeza.

Esse conhecimento é imperfeito, mas, mesmo assim, indispensável. Não saberíamos não simbolizar, não saberíamos não acreditar nem tampouco não teologizar. É nessa busca sincera de descobrir como se porta o coração de Deus que nos descobrimos humanos.

Vendo o que ele possivelmente é, deparamo-nos com aquilo que certamente ainda não somos, mas queremos ser.

Longe de ser uma postura antropológica negativa, essa perspectiva se abraça à certeza de que a santidade é um processo de aprimoramento do humano em relação a Deus. Uma humanidade impregnada de Deus é uma humanidade em ponto de chegada, aprimorada, verdadeiramente humana.

Foi por entender assim que o filósofo Zubiri sabiamente concluiu que “Deus é uma forma infinita de ser homem, e que o homem é uma forma finita de ser Deus”.

Aquilo, que a princípio nos separa, ao final tudo nos congrega. Deus é especialista em humanos. E nós ainda estamos longe de tornar a recíproca verdadeira.


Fábio de Melo em "Tempo: saudades e esquecimentos"

Editora Paulinas.

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