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sábado, fevereiro 09, 2008

AS TRÊS MÃOS DA RAZÃO

Os seres humanos são considerados diferenciados dos outros animais porque são racionais. Esta capacidade lhe dá a habilidade de se comunicar, criar, desenvolver, conectar-se ao mundo espiritual e outras coisas que nós nem sabemos ao certo.

Através da racionalidade a humanidade descobriu a cura para diversas doenças, desenvolveu máquinas que fazem o trabalho pesado, e o melhor, máquinas que pensam por nós. Andávamos até pouco tempo atrás em cima dos lombos dos irracionais. Rapidamente apareceram máquinas que nos fazem correr muito rápido, voar e até ir para o espaço.

Infelizmente a razão não tem apenas o seu lado bom. Com ela o homem multiplica a sua ganância e a sua astúcia assusta, pois maquiavelicamente busca suprir seu egoísmo e seu desejo de poder, de domínio. Com isso, suas habilidades como criar e se comunicar tornam-se um complô para destruição. Até mesmo os que interagem no mundo espiritual com suas razões deturpadas também buscam o egoísmo e domínio sobre o próximo.

Os que pensam se dividem nestes dois grupos: os que agem para o bem coletivo e os que agem a favor apenas de si, sem se importar com o próximo.

Mas há também a terceira mão da razão. São aqueles que não suportam a sua imaginação. Dizem que quanto mais burro, mais feliz. Não que a ignorância traga felicidade. É que para algumas pessoas a razão se torna um vespeiro que se cutucado levará ao desespero. Então é melhor não pensar, pensar dói, pensar é pesar.

Alguns não querem pensar porque a situação pessoal ou global os levam a depressão. Outros não querem porque exercitar a mente cansa muito mais do que exercitar o corpo literalmente. Por isso algumas pessoas preferem trabalhar no pesado a estudar ou ler um livro.

O trabalho é uma necessidade do homem, contudo é um entorpecente como muito outros. Para os racionais que não suportam sua racionalidade existe uma infinita variedade de narcóticos. Conhecemos os ilícitos como as drogas, os lícitos como a nicotina e o álcool e tem também os controlados como os remédios. Entretanto há os entorpecentes naturais, ou seja, são coisas normais que nos fazem irracionais. E neste grupo engloba tudo que dedicamos tempo e atenção excessiva. São coisas que entorpecem a mente desviando a atenção da realidade para algo fútil, algo que serve para entreter, distrair, isto é, não atrair a atenção à realidade.

São pessoas que não suportam a si mesmas, não agüentam ficar sozinhas, nem ao menos suportam o silêncio, sempre tem que ligar o radio ou a tv e procurar alguém para conversar, desde que o assunto não seja intelectual. Os melhores assuntos são: futebol, o tempo, a política e falar mal dos outros, este último é o mais requisitado, pois sempre será o discurso dos derrotados.

Engraçado que a mesma razão que faz o homem criar e se comunicar é a mesma que o faz suicidar. Nenhum animal tira sua própria vida. Este é o seu bem mais precioso. Por isso luta até o último minuto. Quem tem animais sabe que eles também têm os seus dias de ‘deprê’, contudo, digerem com coragem o amargo alimento que a vida lhes preparou para aquele dia. Diferentemente, os racionais não suportam suas angústias, seus medos e pré-conceitos. Precisam entorpecer suas mentes para se alienarem da realidade.

A dor mental é muito mais forte do que a corporal. Há quem prefere um dia com uma dor física do que uma noite de depressão. Então para fugir desde incômodo mental, onde o último trampolim do suicídio é a depressão, o homem se deleita no entretenimento, divertimento e entorpecimento.

Estes, coitados! São alvos manipulados por algum animal racional que pode pender tanta para o bem como para o mal. Poucos dão cabo da sua vida, mas a maioria se entorpece para ter alguma alegria.

CLODOALDO CLAY NUNES

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