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domingo, abril 12, 2009

Dietrich Bonhoeffer - decisões, decisões

Olha, sempre há razões para não fazer alguma coisa; a questão é se, mesmo assim, a fazemos. Se queremos fazer só aquilo em favor do que depõem todas as razões, nunca chegaremos a agir, ou melhor, a ação não será mais necessária, porque outros já terão se encarregado dela. Toda ação verdadeira é aquela que ninguém exceto eu pode realizar. Entretanto, para mim está claro que tenho de fazer este discurso em primeiro lugar para mim mesmo; pois sabes melhor do que ninguém como muitas vezes tenho dificuldade de decidir sobre coisas insignificantes.
Dietrich Bonhoeffer em "Resistência e submissão - cartas e anotações escritas na prisão" - Editora Sinodal, p.434.

Fernando Pessoa - sonhos e sonhos

TENHO MAIS PENA dos que sonham o provável, o legítimo e o próximo, do que dos que devaneiam sobre o longínquo e o estranho. Os que sonham grandemente, ou são doidos e acreditam no que sonham e são felizes, ou são devaneadores simples, para quem o devaneio é uma música da alma, que os embala sem lhes dizer nada. Mas o que sonha o possível tem a possibilidade real da verdadeira desilusão. Não me pode pesar muito o ter deixado de ser imperador romano, mas pode doer-me o nunca ter sequer falado à costureira que, cerca das nove horas, volta sempre a esquina da direita. O sonho que nos promete o impossível já nisso nos priva dele, mas o sonho que nos promete o possível intromete-se com a própria vida e delega nela a sua solução. Um vive exclusivo e independente; o outro submisso das contingências do que acontece.
Fernando Pessoa em O livro do desassossego - Cia das Letras, p.159.

sábado, abril 04, 2009

Paul Tillich - A coragem de ser.
Os estóicos descobriram que o objeto do medo é o próprio medo. "Nada", diz Sêneca, "é terrível nas coisas exceto o próprio medo". E Epícteto diz: "Porque não é a morte, ou a privação, que é uma coisa terrível, mas o medo da morte e da privação".
Nossa ansiedade coloca máscaras assustadoras sobre todos os homens e coisas. Se nós os despimos destas máscaras, aparecem suas próprias fisionomias e o medo que eles causam desaparece. Isto é verdade mesmo em relação à morte. Uma vez que cada dia um pouco de nossa vida é tirada - uma vez que estamos morrendo cada dia - a hora final, quando cessamos de existir, não traz, em si, a morte; tão só completa o processo da morte. Os horrores relacionados com ela dizem respeito à imaginação. Desaparecem quando se tira a máscara da imagem da morte.
Paul Tillich em "A coragem de ser" - Editora Paz e Terra, p.10.
Paulo Freire - Sonho e pesadelo
Certa vez, numa reportagem de televisão sobre bóias-frias no interior de São Paulo, a repórter perguntou a um adolescente camponês:
- Você costuma sonhar?
- Não. Tenho só pesadelo.
O fundamental na resposta foi a compreensão fatalista, imobilista. A amargura da existência daquele adolescente era tão profunda que a presença dele no mundo virara um pesadelo uma experiência na qual era impossível sonhar. "Tenho só pesadelo" repetiu, como se insistisse em que a repórter jamais olvidasse o fato. Ele não via futuro para si.
Sem um vislumbre de amanhã, é impossível a esperança. O passado não gera esperança, a não ser quando se recordam momentos de rebeldia, de ousadia, de luta. O passado entendido como imobilização do que foi, gera saudade, pior, nostalgia, que anula o amanhã. Quase sempre as situações concretas de opressão reduzem o tempo histórico dos oprimidos a um eterno presente de desesperança e acomodação. O neto oprimido repete o sofrimento do avô. É o que ocorre com as maiorias nordestinas deste país. Existencialmente cansadas, historicamente anestesiadas.
Paulo Freire em À Sombra desta Mangueira - Editora Olho Dágua, p. 31.

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