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terça-feira, março 23, 2010

Os pássaros e os urubus... Rubem Alves

- Uma parábola ecumênica -
Muitos e muitos milênios atrás, Deus Todo Poderoso cansou-se da vida que estava levando nos céus. Era muito monótono. As mesmas coisas de sempre. Lá todos andavam de maneira solene, falando baixo e curvando-se em reverências e mesuras. Os coros dos anjos que jamais desafinavam só cantavam Te Deums e Requiems. Eram magníficos. Mas mesmo o bonito, se repetido sempre, fica monótono que, como o nome indica, mono + tono, é “samba de uma nota só”... Deus pensou que seria muito aborrecido passar o resto da eternidade nessa monotonia. Isso sem levar em consideração que eternidade não tem resto. Porque resto é uma coisa que acaba. E a eternidade não acaba. O que está para trás é do mesmo tamanho do que está para frente que, por sua vez, é do mesmo tamanho que a eternidade inteira, para confusão dos matemáticos. Aí, de repente, Deus foi possuído pelo espírito de um menino brincalhão. Resolveu mudar tudo. Como vocês sabem muito bem, Deus jamais faz o pior. Tudo o que ele faz é melhor. Assim, o que ele fez era muito melhor do que os céus que já existiam e eram sua morada. Sua primeira providência foi fazer uma faxina geral. Jogou nos porões inferiores do universo uns livros enormes de contabilidade que, segundo se dizia, seriam usados em acertos futuros. E pôs fogo. A fogueira dos ditos livros está queimando até hoje e pode ser vista diariamente ( menos nos dias de chuva ) redonda e vermelha, atravessando o firmamento. É o sol. “Ninguém tem crédito, ninguém tem débito” : é isso que está escrito na entrada desse lugar, muito embora o famoso poeta Dante Alliguieri, tivesse dito equivocadamente que o que estava escrito era “Deixai toda esperança vós que entrais”. Pobre Dante! Era míope e não via bem...
De fato, prá que livro de contabilidade onde se anotam débitos e créditos se criança não faz contabilidade? Criança esquece fácil. Criança gosta é de brinquedo. Assim Deus sonhou com uma brinquedoteca imensa e disse: “Haja brinquedos!” E foi assim que o universo veio a existir. O universo é a brinquedoteca de Deus.
O que Deus fez foi colocar um pedacinho dele mesmo ( ou será “dela mesma”? ) em cada coisa que criou. Deus se pôs nas flores, no arco-iris, nas nuvens, nos regatos, nos peixes, nas árvores, nas frutas, no vento, nos perfumes, nos insetos, nas estrelas, só um pedacinho. Sabe aqueles vitrais maravilhosos das catedrais, feitos com milhares de pedacinhos de vidro colorido? Nenhum pedacinho, isoladamente, diz a beleza do todo. É preciso que todos os pedacinhos estejam juntos, nenhum é mais importante que o outro.
E Deus criou os pássaros, deliciosos brinquedos de asas. Símbolos da liberdade, eles voam. Símbolos da beleza, eles são de muitas cores e muitos cantos. Símbolos da paz de espírito, eles não têm ansiedades. Jesus até disse que deveríamos ser como eles...
Há pássaro de todo jeito: “amarelos canarinhos, com sete cores as saíras, pequeninas corruiras, escandalosos bem-te-vis, delicados colibris, pintassilgos e andorinhas, tico-ticos e rolinhas, pica-paus e cardeais, pássaros pretos e pardais, negros jacus e urubus.... “
Todos lindos. Lindos por serem diferentes. Nas cores e nos cantos. Se fossem todos iguais seria um tédio? Todos amarelos? Todos verdes? Todos brancos?
Pois Deus, que é uno e múltiplo como o vitral da catedral, Deus que ama as diferenças, criou pássaros de todas as cores para que eles, na sua diferença de cores e de cantos, formassem um vitral vivo em que a sua beleza aparecesse.
Aconteceu, entretanto, que uma raposa trocista, ao passear pela mata, viu um pássaro negro assentado sobre um galho e resolveu provocar a sua vaidade.
- “Bom dia senhor Urubu. Que lindas são as suas penas, tão negras! Confesso não haver visto outro pássaro que pudesse se comparar ao senhor em beleza. Se a beleza do seu canto se compara à beleza de suas penas o senhor é a Fênix dessas florestas, a revelação plena da beleza divina. Imagino que Deus diz aos seus ouvidos coisas que ele não diz aos ouvidos dos outros pássaros! Se Deus desejar falar aos mortais em linguagem de pássaro, estou certo de que o senhor será o seu porta-voz!”
O Urubu ficou encantado ao ouvir as palavras da raposa. E acreditou. Os vaidosos sempre acreditam nas palavras dos aduladores.
“- É isso mesmo”, o Urubu falou consigo mesmo. “Cada pássaro tem um pedacinho de Deus. Só um pedacinho. Mas eu, Urubu, tenho a plenitude da beleza divina. Assim sendo, por que perder o meu tempo ouvindo o canto do sabiá, o canto do pintassilgo, o canto do canário?... O canto deles é uma nota solta. O meu canto é a sinfonia inteira! E é até perigoso que eles fiquem por aí, cantando livres pelas matas e jardins. Porque pode ser que um ouvinte tolo fique gostando do seu canto e assim, por amor à beleza pequena de uma nota, perca a beleza plena da sinfonia. É preciso que se saiba que o canto de todos os pássaros conduz ao meu canto! Para a glória de Deus!
E foi assim que os Urubus começaram uma operação de guerra contra os outros pássaros, sob a alegação de que o seu canto desviava os demais bichos do pleno conhecimento da beleza divina. Espalhou-se pela floresta a palavra de ordem: “Todos os pássaros devem cessar o seu canto. Todos os pássaros devem cantar como os urubus. Fora do canto dos Urubus não há salvação!”
A passarinhada morreu de rir. Sabiás, pintassilgos e canários comentavam: “ Os Urubus devem ter enlouquecido...” E nem ligaram. Continuaram a cantar como Deus havia ordenado que cantassem.
Os Urubus, enfurecidos com a arrogância e presunção dos pássaros que não reconheciam a sua superioridade, reuniram-se em concílio e tomaram uma decisão: “Se não cantam como nós, porta-vozes Deus, cantam contra nós, cantam contra Deus. E quem canta contra Deus não tem o direito de cantar”.
Mas que passarinho pode parar de cantar o seu canto? O pedacinho de Deus que mora em cada um não descansa. Quer cantar! E eles continuaram a cantar.
Os Urubus se puseram a campo em defesa da beleza divina e de sua própria beleza. Começaram a perseguir os pássaros que se atreviam a cantar o canto que Deus lhes ensinara. Era a única forma de faze-los calar. Alguns pássaros se calaram por medo de serem expulsos da floresta a bicadas. Foram então colocados num regime chamado de “silêncio obsequioso” pelos urubus. Ninguém entendeu o que “silencio obsequioso’ queria dizer. Mas ninguém discutiu. Com Urubu não se discute. Silêncio, os pássaros sabiam o que era. Mas “obsequioso” eles não entendiam. Segundo o dicionário “obséquio” quer dizer “benefício”, “benevolência”. Que benefício ou benevolência existe em obrigar um pássaro a cessar o canto que Deus lhe deu? Ou será que o tal “obsequioso” vem de “obséquias”, que quer dizer “funeral”? É possível. O fato é que muitos dos que insistiram em cantar o seu próprio canto foram entregues à raposa que, como se sabe, adora a carne tenra das aves...
O resultado foi que os pássaros de muitas cores e de muitos cantos fugiram daquela floresta sinistra. Foram em busca de outras florestas onde não houvesse Urubus e onde pudessem cantar todos os seus cantos, ao mesmo tempo, e diferentes, para que assim se ouvisse a Grande Sinfonia.
Quanto aos Urubus, ficaram sozinhos na sua floresta. Os bichos que moravam lá se mudaram, porque não agüentavam mais ouvir todo dia o mesmo canto monótono, sempre igual. sem variações, sem contraponto, sem improvisações. Quanto a Deus não é preciso dizer que floresta Ele ou Ela passou a freqüentar...
* * *
Essa estória é um dos meus cantos, pássaro que sou, evadido das florestas religiosas. Ela me apareceu quando lia o livro Diário de uma mulher católica a caminho da descrença, escrito por Laura Ferreira dos Santos, uma brilhante intelectual portuguesa ( escreveu também um maravilhoso livro sobre Nietzsche e educação ). Visceralmente católica, católica de coração, vive um dilaceramento intelectual e afetivo ao pensar sobre a sua Igreja. À página 51 ela comenta a encíclica Dominus Iesus, que liquida qualquer possibilidade de diálogo ecumênico. Cito: “E para a Congregação da Fé, não há dúvida de que a Igreja Católica é superior a todas as outras igrejas, que o “seu” cristianismo tem o copyright da autenticidade, pois “ a Igreja de Cristo, não obstante as divisões dos cristãos, continua a existir plenamente só na Igreja Católica. Existe uma só “subsistência” da verdadeira Igreja, ao passo que fora da sua composição visível existem apenas “elementa Ecclesiae” ( elementos da Igreja ) que (...) tendem e conduzem para a Igreja Católica.” Assim, não existe razão ou possibilidade de diálogo entre diferentes expressões do Cristianismo. Porque o diálogo só existe se eu admito não ser dono da verdade toda, que o meu interlocutor sabe alguma coisa que eu não sei. Como contei na estória dos pássaros e dos urubus...


(Correio Popular, Caderno C, 07/12/2003.)

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