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quinta-feira, abril 22, 2010

Gabriela Correa - A médica e o monstro



Novamente vemos a ficção e a verdade se fundirem homogeneamente na nossa realidade. O livro clássico do escocês Robert Louis Stevenson (1850/1894), escrito em 1886 com o nome original de "The Strange Case of Dr. Jekyll and Mr. Hyde", é um dos mais filmados na história do cinema fantástico, com uma infinidade de versões. Entretanto a melhor versão é a real. Todos nós temos um médico e um monstro dentro de nós. Um ser que ama a vida e deseja protegê-la com todo cuidado possível e paradoxalmente possuímos um monstro que é capaz de passar por cima de tudo e de todos por causa do egoísmo, ganância ou pura maldade. Paulo falou do seu monstro para os romanos (Romanos 7.15-20), explicitou a sua luta contra o mal que age em seu coração. Podemos constatar que nem o apóstolo Paulo escapou da contaminação maligna. Não há um justo sequer (Rm 3.10), nossos exames clínicos espirituais estão todos confirmados como ‘reagentes’, somos contaminados pela semente da maldade que germina no coração podendo alcançar um tamanho que assusta os próprios contaminados, ou seja, todos nós.
Fácil, mas muito fácil é julgar alguém que comete barbaridades, ainda mais se o maldoso for uma pessoa que está rotulada somente para o bem. O abismo entre a bondade e a maldade é imenso, por isto o choque. Entretanto não damos conta do contraste entre a luz e as trevas do nosso próprio coração. Julgamos e apedrejemos os ladrões e assassinos, contudo não nos preocupamos com o ódio e a inveja que para Deus é uma forma de assassinado e roubo. Criticamos e condenamos os que agridem os pais e os filhos, mas pouco ligamos para o abandono que é uma cruel agressão, pais são abandonados em asilos e crianças são órfãs de pais vivos.
Neste recente caso da médica Gabriela Correa que participou das barbáries cometidas na capital mineira logo dizemos: “Como uma garota linda, formada em medicina e com um belo horizonte na vida, se envolve numa situação que não se explica?” Não será a beleza, uma formação intelectual ou um futuro promissor que dissipará o mal do coração de uma pessoa. O bem e o mal, o médico e o monstro se posicionará e guerreará no campo de batalhas do coração de qualquer individuo, não há exceção. A maldade não está na cara, está no coração.
Você está enxergando a enorme maldade no coração da Gabriela? Isto é somente um reflexo do nosso próprio coração. Na Gabriela só vemos o infinito horizonte diabólico que há disponível em nossos corações. Ela é mais um exemplo para examinarmos a nós mesmos, não como um miserável que olha para ela e se vê como um santo canonizado, mas sim, um espelho que nos mostra o tamanho do mal que habita em nós e qual é o tamanho que o nosso monstro está.
Não a defendo, minha vontade é vê-la torturada e morta sem a cabeça como este grupo fez com suas vítimas, entretanto esta não é a vontade do ‘médico’ que habita em mim, mas do monstro que deseja expelir sua maldade com a máscara da justiça. Não estamos aqui para julgar, pois se nem Jesus que é ‘O Cara’ não julga (Jo 3.17) quem somos nós para julgar.
O perdão é uma forma de absolvição espiritual, é a cara dela e de todos que comentem crimes cumprirem sua condenação física, seja ela a detenção ou até mesmo a pena de morte, mas a absolvição espiritual, desde que o culpado queira, é dever de todos nós, isto engloba o não-julgamento e o perdão, quem não perdoa, jamais será perdoado (Mt 6.12) e quem não precisa de perdão pode apedrejar (Jo 8.1-11). Quem se dispõe?
Sêneca disse: “Sou humano e nada do que é humano me é estranho”. Não fico boquiaberto com estas crueldades, para o humano a maldade é intrínseca, já a bondade, o respeito e o amor ao próximo é necessário se esforçar e lutar para alcançarmos a boa parte do que é ser humano. E para isto dependemos da intensidade da luz divina que ilumina nosso coração, pois em nós não há bem algum, em nenhum sequer (Rm 3.12; Rm 7.18).



Clodoaldo Clay Nunes, 2010, Abril, 21

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