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domingo, julho 10, 2011

O CHINELO

(Publicado no jornal da PUC)

por Antonio Prata

Pediram-me que escrevesse um texto para o jornal da PUC, na qualidade de ex-aluno. Disse que adoraria, mas seria impossível, pois esse belo e almejado epíteto, “ex-aluno”, ainda se encontra em algum nebuloso ponto do futuro. Com meu método slow-motion de graduação, trancando e destrancando a faculdade, enredado em trabalhos, contornando os acasos e descasos que se interpõem entre mim e o sonhado terceiro grau completo, eis que a PUC faz sessenta anos e eu quase comemoro uma década dentro dela. Sinto-me como um desses filhos que não casam e ficam eternamente morando com a mãe. Penso até em seguir aquelas dicas de livro de auto-ajuda e, fazendo da dificuldade um incentivo, pintar numa camiseta o brasão da PUC e a frase: “Antonio, since 1998″.

Houve certa vez uma tarde, triste tarde, lá se vão dois verões, em que achei que estivesse formado. Cheguei na secretaria, cheio de prosa, perguntando, “e aí, moça, onde é que eu assino?”. Enquanto ela puxava meu currículo, eu batucava no balcão e assobiava “viver e não ter a vergonha de ser feliz/ cantar e cantar e… (breque)” – o samba atravessou assim que o rosto da amável funcionária começou a tomar uma expressão de médico diante da tomografia, adiando o momento de dar a má notícia. “Vejo aqui algumas pendências”, disse ela. Pendências? Como assim, pendências?! “Geografia”… Mas tem geografia em Ciências Sociais?! “Espaço interdisciplinar II…” Dois? Tem dois?!!! “Sociologia dez…” Já não fiz essa matéria? “Motricidade humana…” Motri… O que?! Antes que ela, voltando no tempo em sua enumeração, encontrasse algum problema com uma nota de química do segundo grau e eu acabasse tendo que voltar para o colegial, resolvi sair correndo. Só parei na Cardoso de Almeida onde, agachado e sem ar, lembrei-me de como continuava o samba do Gonzaguinha: “não ter a vergonha de ser um eterno aprendiz”. Pois é.

Embora tenha que aceitar risos de desdém de minha irmã mais nova (quase no fim do mestrado), e suspeite um olhar enviesado da garota do xerox (como quem diz, “você, ainda aqui???”), levar tantos anos na faculdade tem suas vantagens. A maior delas é que, mais um pouco, passarei direto da carteira de estudante para a de aposentado, gozando assim por toda a vida do benefício da meia entrada. Além disso, se o passar dos anos me deixa em desvantagem em relação a meus jovens colegas durante as tais aulas de motricidade humana, a experiência certamente me fez acumular muitas histórias para contar no jornal da PUC – caso desistam de me colocar como ex-aluno e me aceitem na qualidade de, digamos, aluno-perene.

Lembro, por exemplo, do primeiro dia de aula, no final do século passado. Éramos muitos, a classe pequena e fazia calor. Uma aluna bem intencionada sugeriu fazermos um abaixo assinado, pedindo ventiladores à reitoria. Assinarmos numa folha de caderno e a garota dirigiu-se ao centro acadêmico, a fim de datilografar nossa justa reivindicação. Voltou de lá uma hora e meia depois, com os olhos arregalados e um texto de duas páginas, resultado da ajuda que um guerrilheiro maoísta do CA tinha dado na “digitação”. Começava assim (lembre-se, nós queríamos apenas ventiladores): “A educação no Brasil sofre diversos ataques dos governos que aí estão. Exemplos disso não faltam. Só no ano passado, o governo de São Paulo demitiu…” E nessa toada ia até o fim, denunciando “o sucateamento da educação”, o “fascismo neo-liberal” e outras milongas, visando não a aquisição de ventiladores (reformistas! Reformistas!), mas a derrocada do capitalismo global (revolución! Revolución!). No fim, em tom grandiloquente e ameaçador, o texto dizia: “Por isso exigimos, imediatamente: A) A divisão da turma em dois. B) Ventiladores.” Sem entrar no mérito da derrocada do capitalismo global (discussão que poderia levar algum tempo), perguntei qual a razão de pedirmos a divisão da turma, se queríamos apenas ventiladores? “Pois é”, disse mi-ha colega, arfante, “eu também disse isso pro cara, mas ele falou que a gente tinha que dar uma alternativa para a reitoria, senão eles não teriam como negociar”. Após breve assembléia, chegamos à conclusão de que se era realmente necessário apresentarmos uma alternativa, o pedido iria assim: “A) Um frigobar cheio de Boêmias e Chicabons. B) Ventiladores”. Se eles fechassem com o frigobar, não oporíamos resistência. Uma semana depois, infelizmente, dois reluzentes Ventisilva, afixados na parede, assopraram para longe as cervejas e picolés de nossa utopia pequeno burguesa.

No ano seguinte tivemos a sorte de dividir a classe com uma turma de psicologia. Nós de noite, elas de tarde. Nunca os alunos de ciências sociais foram tão pontuais. Antes das sete já estávamos todos na porta, olhando pela janelinha, os superegos apitando feito panelas de pressão diante de nossos ids borbulhantes. Termos esses que, eu viria a descobrir dias depois, decepcionado, não causavam boa impressão sobre as futuras psicólogas.

Eu estava, por um grato acaso, numa mesa cheia daquelas alunas, num bar da Vila Madalena. Como havíamos lido Mal estar na civilização aquele semestre, achei que poderia ser um assunto interessante. Que nada. Foi só começar a falar e elas me olharam com profundo desdém. “Vocês não gostam de Freud?”, perguntei, sem entender. “Não”, elas disseram, em coro. “Mas então, do que vocês gostam?” “Fenô”, responderam, sempre unidas. Fenô??? What the hell is fenô?!. “Fenomenologia”, disse uma delas, ajeitando graciosamente os cabelos atrás de uma orelha. E do que trata a fenomenologia? “Tipo assim… Imagina um chinelo”. Um chinelo??? “É, um chinelo jogado num canto. Freud vai olhar pra esse chinelo e perguntar quem é a mãe do chinelo, o pai do chinelo, os avós do chinelo” – e nesse ponto todas faziam cara de fastio diante do laborioso escrutínio freudiano acerca da genealogia do chinelo – “já a fenô, não.” A garota sorriu, arrumou mais uma vez o cabelo e, como um toureiro que dá o golpe de misericórdia no touro moribundo – eu – terminou de explicar: “A fenô olha pro chinelo e tenta entender o chinelo mesmo, tá ligado? O chinelo do jeito que ele é, do jeito que ele tá. O chinelo enquanto chinelo. E só.” Olé!

Queria dizer “claro, como pude me iludir com as teorias ultrapassadas de Freud? Ouvindo agora, eu percebia, era fenô desde criancinha”. As garotas, no entanto, se levantaram e foram embora, com suas saias curtas e cabelos longos, me deixando ali, sem pai nem mãe, mais abandonado que o chinelo fenomenológico. Até hoje, quando ouço a palavra fenomenologia, um chinelo imediatamente atravessa a tela do meu pensamento. Um chinelo velho, de couro, como convém a um filósofo que se preze.

Este semestre, após longo afastamento, destranquei a matrícula e voltarei à faculdade. Faltam apenas seis matérias e há grandes chances de que, em meados de 2007, eu já tenha direito a cela especial e a olhares mais respeitosos de minha irmã mais nova e da moça do xerox. Não sentirei mais vergonha de que vejam meu número de matrícula na lista de chamada, denunciando-me como um remanescente do século passado. (Sempre acho que vão me perguntar se tive aula com Florestan Fernandes ou se estava na PUC na invasão de Erasmo Dias). Poderei, enfim, escrever terceiro grau completo nas fichas de crediário e respirar tranquilamente se desbaratarem a usina de enriquecimento de urânio que tenho aqui em meu quintal.

Suspeito que, depois do alívio pelo diploma, virá um profundo sentimento de vazio. Como poderei viver sem o ranger dos degraus do prédio velho sob meus pés? O que farei com a saudade das noites em que, enquanto o resto da humanidade assistia a novela das oito, meia dúzia de gatos pingados discutiam fervorosamente o movimento dos colares entre os trobriandeses, a eficiência dos DASP (e DASPi-nhos) no governo Getúlio Vargas, a função das nádegas na aceitação da morte – segundo Bakhtin?

Só tem um jeito. Assim que me formar, entro no mestrado, garantindo, quem sabe, mais uns dez anos em torno do glorioso pátio da cruz. Já sei até a que tema me dedicarei: fenô. Descobrirei, enfim, quais verdades ocultas se escondem por trás daquele chinelo. Não o pai, nem a mãe, só o chinelo, enquanto chinelo. Tá ligado?

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